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29 Abril

Semi o quê?

Escrevi esse artigo há um tempo e agora resolvi dar a cara a tapa (que ousadia, escrever sobre semiótica depois da aula irretocável que a Lucy Niemayer acabou de dar?). O risco é grande, pois ficará evidenciado o quão meus conhecimentos sobre o assunto são parcos e mínimos. Como não sou masoquista, isso tem uma explicação: a idéia é enfatizar, de um jeito descontraído, o quanto a gente deve ler com toda calma e atenção tudo o que essa extraordinária mulher escreve.

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Um dos aspectos mais importantes do trabalho do designer é o seu conhecimento em semiótica. Ok, mas quantos deles sabem bem o que essa palavrinha capciosa significa?

Os pesquisadores na área vira-e-mexe se deparam com perguntas curiosas: seria o estudo dos símios ou uma especialidade da oftalmologia?

Bom, já vou adiantando que o assunto é bem complicado. Para se ter uma idéia, tem a ver com fenomenologia, a área da filosofia que estuda o modo como nós compreendemos tudo o que é apresentado à nossa mente, desde uma imagem, um som, até conceitos mais abstratos e emoções complexas. Fenômeno, que vem do latim phaneron, é tudo aquilo que nossa mente consegue perceber. Nada a ver com o prosaico Ronaldinho. Sentiu o drama?

Pois é, e onde é que a semiótica entra nessa história? Bem, a palavra deriva do grego semeion, que significa signo, e é a ciência que estuda os signos (não, não tem nada a ver com horóscopo!). Signo, para a filosofia, é tudo aquilo que significa alguma coisa. Assim, aquele cheirinho de café feito na hora é um signo tanto quanto a marca gráfica de uma empresa.

O signo, essa coisinha aparentemente simples, mas bem cheia de detalhes, pode ser analisado de 3 pontos de vista (segundo Charles Pierce, uma das principais referências; mas há quem discorde, como, de resto, tudo na filosofia):

• O signo em si mesmo, ou seja, a sua capacidade de significar. Por exemplo, o quanto o desenho de uma flor é reconhecível como a representação de uma flor.

• A referência àquilo que ele indica ou representa. Por exemplo, a relação entre o desenho e a flor. A flor é a idéia; o desenho é uma forma de comunicá-la.

• Os efeitos que o signo produz em quem está sendo impactado por ele. Por exemplo, a sensação que a pessoa tem quando vê o desenho da flor.

Parece que o número 3 é mágico na semiótica, pois tudo se desdobra em três partes e vai ficando cada vez mais complicado. Então, para não me alongar muito, só vou descrever os três tipos que os signos:

Ícones: são signos que mantém uma relação de analogia com o objeto representado. Ex: desenhos figurativos, fotos, filmes, imitações, caricaturas, etc

Índices: são signos que mantém relações causais com os objetos ou idéias que eles representam. Ex: fumaça para indicar fogo, talheres para indicar restaurante, sorrisos para indicar alegria, lágrimas para indicar tristeza, etc

Símbolos: são signos cujos significados são derivados de convenções. Ex: foi convencionado que um triângulo na pista significa carro com problemas; que uma pomba representa a paz; que a bandeira representa um país, que símbolos gráficos representam sons em uma palavra. Esses signos só são entendidos por quem conhece as convenções.

Está vendo como tem gente chutando por aí e usando símbolo, ícone e signo como sinônimos? A semiótica é extensa e complexa, e fico preocupada com a forma displicente com que os jovens estudantes de design a tratam. Com que critério se vai escolher entre um ícone, um índice ou um símbolo para representar uma idéia? O impacto da escolha do tipo de signo tem implicações diretas na forma como ele será interpretado e as relações que terá com seus receptores.

A teoria da comunicação nos diz que as pessoas interpretam os signos de acordo com o repertório delas. O repertório é o conjunto de informações que essas pessoas já conhecem e inclui a história, a cultura, as crenças e as vivências de cada um. Se o designer escolhe signos que estão fora do repertório, é provável que essas pessoas não o compreendam ou se sintam desconfortáveis com ele. Se o designer usa apenas signos comuns ao repertório de todos, cai na mesmisse e no lugar-comum. Uma verdadeira sinuca; é aí que os brilhantes aparecem e se destacam.

A semiótica é uma ciência essencial para ajudar o designer a usar as ferramentas mais adequadas a cada situação. É o que faz o seu trabalho ser mais conseqüente, planejado, eficaz.

Designer que não entende de semiótica, é, para mim, um semidesigner.


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6 Comentarios »

  1. Muito pertinente este artigo da lígia, pois muitos designers aplicam o uso da semiótica sem mesmo saber o que ela significa. as vezes são tedenciosos a usarem aquilo que apenas ele mesmos percebem. isso é um erro! o design precisa ser compreendido, mesmo inconsciente, pelo receptor, e totalmente compreendido pelo produtor!

    Cleber Muniz

    Comentario por Cleber Muniz
  2. Ótima coluna! Parabéns Lígia! Esta coluna, em conjunto com a da Niemeyer e mais a minha sobre “LOGOMARCA” fazem uma trindade perfeita! rsrsrs

    Parabéns!

    Comentario por Antonio Ribeiro
  3. resumo bem feito… bem legal.
    Comentario por Eduardo Camillo
  4. Que ótimo, Lígia! Adorei o seu texto: leve e correto, uma articulação rara. Você abordou muito adequadamente a importância da semiótica no design. Este quadro teórico organiza e explica o que é feito de modo expontâneo e assistemático. Como ajuda na atividade projetual os conceitos preciosos subjacente às palavrinhas ásperas usadas por Peirce!
    Parabéns pelo bom trabalho!
    Lucy Niemeyer
    Comentario por Lucy Niemeyer
  5. Ótimo texto! Esclareceu bastante as minhas dúvidas a respeito da Semiótica, Obrigado!
    Comentario por Daniel Racca
  6. Não fique preocupada, pois os jovens estudantes de Design estão ESTUDANDO.
    Comentario por Rafael

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