Beleza nos neurônios

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coruja

A estética é um assunto que me fascina. Por que algumas coisas nos encantam e outras não? O que é a beleza? A edição de setembro do ano passado da revista Mente & Cérebro nos dá algumas pistas com o artigo “A neurologia da estética”, escrito pelos neurocientistas americanos Vilayanur e Diane Ramachandran.

Esses estudiosos defendem que existem leis universais da estética que podem transcender não apenas culturas, mas também espécies. Parece absurdo à primeira vista, mas pense bem: a gente acha borboletas lindas, mas elas não se enfeitam assim para a gente; os bichos têm aqueles desenhos sensacionais nas asas para atrair outras da própria espécie. Levante a mão aí quem conhece alguma cultura que não admire a beleza das borboletas. Dá para pensar nas flores, nos pavões, no Brad Pitt, na Angelina Jolie e em tudo aquilo que a esmagadora maioria das pessoas considera unanimidades visuais. O que será que essas coisas, bichos e pessoas têm em comum?

Eles procuraram características comuns e acharam essas. As duas primeiras são velhas conhecidas da Gestalt, mas as outras também fazem sentido, olha só.

Agrupamento: Acontece quando a gente vê uma imagem fragmentada, como um cachorro dálmata em frente à uma parede branca de bolinhas pretas. O nosso cérebro tem que se esforçar para reunir os pedaços e montar uma figura de cachorro, pois tudo parece misturado. Quando as peças se ajeitam e a gente consegue ver a figura, dá uma sensação gratificante. Aparentemente essa tarefa envia mensagens de prazer ao nosso sistema límbico e ele interpreta isso como algo em que vale a pena prestar atenção. Os Ramachandran acreditam que essa capacidade foi desenvolvida durante a nossa evolução para contornar a esperteza da camuflagem. Nosso sistema desconfia que as partes todas não são parecidas por coincidência e tenta prestar atenção na figura para montá-la. Isso faz com que coisas assim pareçam interessantes para nós, contribuindo para a harmonia estética.

Simetria: Aqui os pesquisadores também apontam a influência da evolução na nossa capacidade de sentir uma atração irresistível por coisas simétricas. É que se a gente observar, as coisas mais interessantes na natureza (presas, predadores, parceiros) são simétricos, fato que mais do que justifica a nossa atenção para essa característica. A natureza associa assimetria com genes defeituosos ou parasitas. Predadores saudáveis são mais simétricos, portanto, mais perigosos, e parceiros simétricos também têm saúde melhor para reproduzir nossos genes. Mesmo depois de tanto tempo, a gente continua achando as coisas simétricas mais dignas da nossa atenção do que aquelas meio tortas.

Estímulos hipernormais: Essa é a mais misteriosa das capacidades, pois tenta explicar como nossos neurônios visuais codificam uma informação sensorial. Aparentemente, o nosso sistema límbico provoca um choque de satisfação quando somos submetidos a alguns padrões estranhos. É alguma coisa na gramática perceptual primitiva do cérebro que ainda não se conhece bem, mas justifica porque as pessoas podem se apaixonar perdidamente por algumas formas esquisitas e até pagar fortunas para tê-las. Alguém pode dizer que algumas obras de arte são valorizadas por causa do mercado; mas e quem as comprou antes de fazerem sucesso, só porque gostou delas?

Mudança de pico: Essa é a capacidade que faz as pessoas apreciarem uma caricatura ou uma foto que ressaltem um rosto diferente da média, com alguns traços mais acentuados que o normal mas que mesmo assim se encaixam com harmonia (vide os narizes da Gisele Bündchen e do Tom Cruise, a boca da Angelina Jolie, os olhos gigantes da Anne Hathaway). Pesquisadores de Harvard descobriram que macacos reagem com muito mais animação a uma caricatura de um rosto do que a seu original, mesmo em detrimento da simetria.

Isolamento: Essa capacidade faz com que a gente consiga reduzir todos os detalhes de uma imagem a apenas suas formas essenciais. Essa é a razão pela qual às vezes achamos mais interessante o esboço de um pássaro rabiscado do que uma foto da mesma ave em alta resolução. É porque isso permite concentrar nosso sistema visual apenas no que é essencial sem se distrair com detalhes irrelevantes. Nosso sistema límbico também tem uns ataques de “menos é mais” de vez em quando.

Resolução de problemas perceptuais: Somos mais atraídos pela imagem de uma pessoa semi-encoberta por uma cortina transparente do que pela pessoa sem nada. Por quê? É que nosso cérebro adora descobrir um objeto escondido, é como um enigma visual. Cada vislumbre parcial do objeto faz a gente ficar contente e continuar a busca para ver o que há atrás. Não é à toa que publicitários trabalham tanto para evocar sensações de ambigüidade, mudanças e pico e paradoxos para fazer as coisas ficarem mais instigantes.

Pois é, esses são os princípios que tentam explicar a beleza comum, aquela que é consenso e, mesmo assim baseada apenas em princípios visuais estáticos. Mas penso que uma coisa muito importante foi deixada de lado, e que, para mim, faz toda a diferença: é a maneira como um animal ou uma pessoa se mexe. A graça com que um felino caminha, o domínio do corpo na dança, a elegância e a atitude de uma pessoa; esses detalhes têm o poder de transformar patinhos feios em cisnes com muito mais eficiência do que qualquer plástica.

Além disso, não dá para esquecer justamente aquelas coisas que não se encaixam em nada disso, o que é bonito só para a gente e para mais ninguém. Todo mundo, no fundo, tem lá seus filhotes de coruja.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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