Curso para clientes: Como funciona a percepção visual

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A percepção é um processo dinâmico que obtém dados dos sentidos do homem (tato, audição, visão, olfato, paladar), combina tudo isso com os dados da memória e do entendimento. A percepção existe mesmo nos menores seres vivos e desempenha um papel importante na sobrevivência deles. Sem a percepção o homem não teria como existir, pois é por meio dela que ele avalia o mundo ao seu redor e então toma suas decisões a favor da sua sobrevivência.

É a percepção que lhe mostra que a maçã está estragada, pois a casca está com manchas, e não deve ser comida. A percepção diz a hora em que devemos atravessar a rua, se devemos ou não colocar uma blusa para nos proteger do frio, se já é hora de acordar já que ouvimos tocar a campainha do despertador. Sem ela, duraríamos pouco tempo na Terra.

A percepção visual representa uma interface entre o cérebro e o meio ambiente. O sistema responsável pela visão é caracterizado por milhões de células que reagem detalhadamente a aspectos do que está ao nosso redor. Essa células nervosas respondem a cada componente da imagem como direção, grau de inclinação, forma, cor, através da ativação de áreas especializadas dentro do córtex visual. A tipografia está intimamente ligada ao sistema que analisa as formas, neste caso.

Embora a imagem seja “fatiada” em diversas partes, o cérebro não retira o significado em cima das partes isoladas. Ou seja, nenhuma análise é feita a partir apenas da forma, por exemplo. Percebe-se que já no processo da visão, tudo trabalha de modo relativo e interdependente. Um fator específico (digamos a cor) pode afetar todo os demais.

Dentro do sistema visual, várias partes trabalham de modo separado e ao mesmo tempo em harmonia com as demais, de modo a ativar a inibir certas respostas, e existe um contato contínuo entre essas partes. No dia-a-dia dos designers gráficos, é comum que os clientes solicitem mudanças nos desenhos e layouts, imaginando que isso não afetará todo o trabalho. Isso é um engano, pois todos os elementos de uma página ou item de comunicação são interdependentes. Mexer em uma cor, tamanho de um logotipo, posição na página, enfim, qualquer mudança, pode requerer que a página tenha que ser reajustada.

Como funciona a visão, passo a passo?

  1. O processo da percepção visual começa quando a luz atinge o ambiente ao nosso redor.
  2. Depois de atingir um objeto a luz é devolvida para o ambiente e então chega aos nossos olhos. Esse fluxo contínuo de luz, que chega à visão chama-se “matriz ótica”.
  3. A luz chega aos nossos olhos e é focalizada por meio de uma lente chamada cristalino. O foco faz com que a luz recebida seja concentrada no fundo dos nossos olhos, numa região chamada “retina”. A retina é composta por 126.000.000 (milhões) de receptores de luz, chamados de cones e bastonetes. Desse total, 120 milhões são bastonetes e apenas 6 milhões são cones. Assim, esses receptores podem receber simultaneamente até 126 milhões de matrizes óticas, inundando a visão com informações do mundo externo.
  4. Nossa visão procura dados e age baseada em informações que estão ao nosso redor. Isso explica porque os olhos se movem a todo instante. A visão não é um processo passivo, como poderíamos pensar. Ou seja, os olhos não são como uma pequena janelinha que deixa entrar luz quando está aberta. Eles participam ativamente no processo visual, dizendo qual deve ser a direção a ser olhada, em que posição, por quanto tempo, onde deve-se prender a atenção, etc.
  5. Depois que os receptores visuais da retina (cones e bastonetes) recebem o fluxo contínuo de luz, eles traduzem essa luz em impulsos elétricos que então serão encaminhados pelo nervo ótico para o Núcleo Geniculado Lateral (NGL) no cérebro.
  6. Esse Núcleo possui 6 camadas de células. As duas camadas mais inferiores, chamadas de camadas magno-celulares, são relacionadas com a percepção do movimento, profundidade e parte do espaço e geralmente agem primeiro detectando coisas que se mexem, a que distância elas estão e qual o contraste nas suas bordas. Antes mesmo de saber qual é a cor de um objeto, precisamos saber se ele está se mexendo (movimento), se está chegando muito perto (distância) e se parece ou não com algo perigoso (forma das bordas)
  7. Atuando em seguida, de modo mais lento, as 4 camadas que estão na parte mais superior do Núcleo são chamadas de camadas parvo-celulares que novamente se dividem em 2 caminhos responsáveis pela percepção da cor, forma e orientação espacial.
  8. As duas camadas do Núcleo Geniculado Lateral (camadas magno e parvo-celulares) ligam-se depois ao Córtex Visual Primário, também chamado de área V1. Essa área V1 é separada de outras áreas especializadas do córtex cérebral por uma área chamada V2. Juntas, essas duas áreas poderiam ser chamadas de “recepção”, o lugar que é encarregado de enviar os diferentes sinais para as áreas apropriadas e que participam nos demais processos de análise das informações visuais. Por exemplo, sinais relacionados a objetos que se movem ou cuja forma se modifica devem ser enviados para a área V3 e V5 para serem processados. A cor é enviada para ser processada na área V4.
  9. Além disso, no Córtex Visual, os impulsos elétricos recebidos a partir da retina são processados em milhares de módulos especializados, cada qual relacionado com uma pequena área da retina. Já nesse processo os dados visuais são diminuídos e compactados, de modo que o que está sendo analisado pelo cérebro não é uma “foto em miniatura” do ambiente. A imagem que está no cérebro num dado instante é apenas um mapa muito resumido que representa apenas as características mais significativas do que vemos e não uma imagem detalhada com cada pequeno fragmento.

Curiosidades sobre a percepção visual

Assim, a percepção não é baseada num contato imediato com o meio ambiente mas sim no contato com esse pequeno mapa resumido que “representa” o que chega aos nossos olhos. A imagem que está sendo processada na nossa mente guarda apenas os detalhes mais importantes do ambiente, aqueles detalhes que são suficientes para efetuar comparações e análises. As formas (incluindo as letras) que vemos não são pequenas miniaturas que chegam ao cérebro, mas apenas padrões simplificados que representam essas formas.

A visão não é simplesmente um processo de enxergar-analisar-entender. Funciona mais como um sistema de exploração contínua, que não tem fim, em que cada vez mais dados são coletados do ambiente e isso afeta a cada momento a percepção total. Todas as vezes em que olhamos ao nosso redor, estamos continuamente respondendo nossas dúvidas sobre o ambiente e fazendo novas perguntas. Ao ver um pontinho preto na nossa pele, que não havíamos visto antes, nos perguntamos como ele foi parar ali? Há outros pontinhos na pele? Isso mostra que durante a visão a nossa memória participa ativamente. Assim, podemos afirmar que só enxergamos de certo modo, aquilo que conhecemos. Somos cegos para o que não aprendemos antes. A nossa visão é extremamente “preconceituosa” e enxerga tudo de modo muito particular. Cada pessoa tem uma visão diferente do mundo.

Os olhos tem inteligência. Como todas as informações que recebemos do nosso ambiente são bagunçadas e cheias de duplo sentido, os olhos tem que trabalhar para perceber mudanças e “não-mudanças”, de modo a organizar o que chega a partir do mundo exterior.

Quando a visão vê um objeto pela primeira vez, não guarda o objeto inteiro. Até porque, convenhamos, isso ia ser um problema pois, como o cérebro faria para saber de quê ângulo o objeto deveria ser “fotografado” pela mente? De frente? De lado? De cima? Agindo dessa maneira, teríamos que enxergar todos os ângulos possíveis da forma e nosso cérebro ficaria entulhado com um monte de imagens repetidas do mesmo objeto. Ou seja, seria um desperdício de espaço. O que o cérebro na verdade faz é guardar apenas as formas que contém as características que não mudam nos objetos, independente do ângulo em que estejam sendo vistos. Essas formas que o cérebro guarda recebem o nome de padrões invariantes (ou seja, que não mudam).

Conforme nossa memória visual vai crescendo, usamos esses padrões para detectar as formas básicas e pra tentar adivinhar as formas intermediárias que aparecem quando estão em diferentes posições.

Quando a visão está tentando reconhecer um objeto, na verdade o cérebro compara os dados que vêm da retina com o padrão guardado na memória de longa-duração. A representação na memória que se enquadra mais perfeitamente com o que a retina está recebendo é selecionada como sendo o objeto visto. Assim, basta vermos por exemplo o contorno da sombra de uma planta para sermos capazes de detectá-lo pela memória, usando um padrão simplificado.

Como dificilmente um objeto ou forma permanece a mesma pra sempre, a memória visual continua evoluindo e se modificando com a experiência. Cada vez que vemos algo mudar, a memória visual é atualizada de modo a refletir a diferença do objeto. Novamente, o que o cérebro vê e o que a memória guarda são as diferenças. O cérebro nunca guarda duas ocorrências da mesma coisa. Esse é um argumento pela qual um logotipo ou símbolo nunca deve ser igual a outro similar, pois ao fazer a simplificação das formas, o cérebro percebe que na verdade tem o mesmo padrão e então descarta o logotipo copiado, já que aquele padrão já tinha sido armazenado na memória.

O psicólogo James Gibson, em seu livro sobre a teoria ecológica da óptica, diz que não é a luz em si que define se um objeto é visível ou terá essa ou aquela forma. Pra ele o que importa é a “relação”, ou seja, são as mudanças e transições na matriz ótica e não a luz em si mesma, que afetam a visão. São as diferenças entre os pontos e retalhos de luz que nós vemos. Assim sendo, é a “mudança” que ativa a visão e é o “relacionamento” que carrega o significado.

A escola de percepção visual chamada Gestalt aponta para esse mesmo raciocínio. Segundo ela, os princípios que norteiam a percepção estão no espaços “entre” os elementos ao invés de estar “dentro” deles. O significado deveria ser encontrado na relação entre os objetos e no relacionamento que formaria a imagem total, não nas partes separadas em si.

E o que isso tem a ver com o design gráfico?

A importância que isso tem pro design é que as partes nunca são vistas de modo isolado. O todo é maior que a soma das partes (esse conceito é chamado de “supersoma” na psicologia gestaltista). Se uma parte muda, as demais partes podem precisar mudar para reacomodar as diferenças e manter a percepção total que desejávamos no princípio.

Por exemplo, se um cliente pede pra aumentar um logo ou pra tirar um fundo, isso pode exigir um layout completamente novo. Uma composição gráfica não é um processo simples onde se colocam e tiram coisas, como se elas não tivessem relação nenhuma entre si. Quando um designer adiciona elementos visuais numa página, está resolvendo o tempo todo a questão do equilíbrio. Se elementos são adicionados ou retirados, o equilíbrio pode ser desfeito, exigindo uma nova organização visual. Experimente tirar ou adicionar frases na letra de uma música. Uma nova frase pode exigir que você mude as outras que já estavam presentes, que tire algumas palavras, descubra uma nova rima, enfim, a música não é uma simples soma de elementos. Um layout também não é.

Para saber mais:

Barry, A. Visual Intelligence – Perception, Image and Manipulation in Visual Communication. State University of New York, 1997.

Stevens, J. Isto é Gestalt. Summus Editorial, 1977.

Rhyne, J. Arte e Gestalt – Padrões que convergem. Summus Editorial, 2000.

Arnheim, R. Arte e percepção visual – uma psicologia da visão criadora. Editora Thomson Learning, 2006.

 

 

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6 comentários

  • Muito interessante o artigo. Parabéns! Mas como fica a relação de percepção entre designer e cliente? Como você mesmo colocou, o designer busca a melhor maneira de equilibrar e solidificar eficientemente uma organização visual, seja ela de uma marca, uma página etc. E quando o cliente não é atingido por essa percepção. Ora, a percepção muda de uma pessoa para outra até mesmo em seus principios mais básicos? Cria-se soluções até chegar num denominador comum? Exemplo a estética ser algo tão personalizado. Isso me lembra o texto da Lígia Fascioni sobre a evolução das coisas utéis, onde deve-se saber "escolher as falhas que irá manter no projeto" para chegarmos em um bom senso. Professor Ricardo, muito interessante sua colocação e análise desde a estrutura física até a conexão disso com o design. Isso contribui e salienta a importancia do aprofudamento técnico e científico em que devemos nos dedicar para embasar essa área a qual sempre se referem apenas para idealizar algo bonito, de bom gosto e por que não funcional?. :)
  • Magnífico. Eu queria conhecer esse processo de percepção especificamente no cérebro da minha mãezinha, que se argulha por "não ser atingida pelas propagandas", mas fica furiosa porque comprou suco de uva com soja porque não notou a embalagem... Anyway, esse tipo de artigo me deixa babando na frente da tela. Tanta ciência à nossa disposição, e a grande maioria dos profissionais da área não conseguem enxergar o quanto esse conhecimento pode fazer diferença. Parabéns, professor! mais um pro meu arquivo =)
  • Nossa, tem certeza que se trata de um curso para clientes?? hahaha Acho que é um curso para designers também. Por isso gosto do site, ele contesta diariamente quem é ou não designer, e a cada crítica eu tento melhorar para me enquadrar melhor profissionalmente, espero ainda chegar lá.