Reflexões sobre o projeto gráfico de jornais impressos

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1. Qual a importância do projeto gráfico?

Falar da importância do projeto gráfico é o mesmo que falar da importância da linguagem, ou seja, é imprescindível. Não se pode imaginar a comunicação visual sem o uso da linguagem para poder expressar as mensagens. A linguagem visual, assim como a verbal, é composta de elementos (formas, cores, tipografia) e de uma sintaxe (convenções que definem como arranjar os elementos entre si, de forma a gerar um discurso compreensível numa cultura). Pode-se dizer que o projeto gráfico é o conjunto de decisões conscientes que tem visam organizar os elementos visuais, dentro de um suporte adequado, usando uma retórica voltada para atingir um objetivo de comunicação, levando em conta o ponto de vista de quem emite a mensagem, e do leitor. Sem um projeto gráfico, a possibilidade de atingir um objetivo comunicacional ficaria dependendo exclusivamente da sorte, do acaso, e isso diminuiria muito as chances de êxito.

Uma curiosidade é que até o início do século 20, a tarefa de comunicar dependia exclusivamente do texto em si, independentemente da apresentação visual. Mas a partir de 1925, com o movimento Nova Tipografia (New Typography), isso mudou e percebeu-se que o aumento crescente da complexidade da informação exigia novas maneiras de apresentá-la. Essa apresentação passou a se dar através do design da informação, que procurou encontrar maneiras de transformar uma mensagem complexa em algo simples. Desde então, esse tipo de design se tornou um dos pilares que sustenta um projeto gráfico (o outro pilar é o design da identidade visual).

2. Como utilizar o projeto gráfico num jornal, para chamar a atenção do leitor?

Vale a pena lembrar que, em alguns casos, o projeto gráfico não deve chamar a atenção para si e sim para o conteúdo verbal. Já em outros casos, os elementos não-verbais podem e devem ser protagonistas da mensagem, como no caso de um infográfico, que informa não através de texto apenas, mas usando elementos visuais e suas relações, para informar, explicar ou persuadir. Logo, um projeto gráfico bem-sucedido procura equilibrar essas diferentes abordagens, usando o que cada uma delas tem de melhor, seja para chamar a atenção para si, ou para atuar em silêncio, dando destaque ao conteúdo textual.

É importante dizer que chamar a atenção e suscitar o interesse do leitor depende de muitos outros fatores, além do projeto gráfico em si. Seria inocência afirmar que um projeto gráfico consegue chamar a atenção de todas as pessoas, pois isso implicaria em dizer que as pessoas são iguais e funcionam como máquinas automáticas que respondem do mesmo jeito, ao mesmo estímulo.

3. O que deve se levar em conta para formular a diagramação de um jornal?

O que define a melhor abordagem é o objetivo da mensagem, o tipo de conteúdo e as características do leitor. Portanto, não há um regra rígida que diga como se deve fazer um projeto gráfico, pois cada caso é um caso. A diagramação de uma página é o resultado de um planejamento que envolve diferentes pessoas, como o editor do conteúdo, o redator, o designer gráfico, o fotógrafo e o leitor. Quando um designer tenta forçar um modelo de página que desconsidera essas outras pessoas, aumenta a chance de conflitos e diminui a chance de êxito na comunicação. É o respeito a todas essas funções que cria páginas únicas, funcionais, interessantes, compreensíveis e, o mais importante, relevantes.

No que diz respeito às decisões específicas do designer gráfico, algumas perguntas que devem ser respondidas antes de projetar uma página são:

  • Qual o conteúdo que deverá ser apresentado?
  • De que partes/segmentos esse conteúdo é feito? Como eles se relacionam/agrupam entre si?
  • Quais partes são mais importantes e quais são secundárias?
  • O tipo de conteúdo exige a presença de um infográfico? Quem irá produzir esse infográfico?
  • Quanto tempo está disponível para produzir o material solicitado?
  • Que tipo de expectativas o leitor possui sobre este assunto?
  • Qual o conhecimento prévio do leitor sobre a matéria?
  • Como as demais editorias/páginas do jornal já estão abordando o tema? O conteúdo faz parte de uma sequência? Ele irá ser apresentado de uma única vez ou aos poucos, periodicamente?
  • Que tipo de equipamento/software está disponível para produzir esse layout?
  • O projeto deverá ser feito em equipe? Quais pessoas vão fazer parte dela?
  • Como o material será reproduzido? Ele terá uma versão digital ou on-line?

Essas são apenas algumas questões, mas que já fornecem subsídios para as decisões sobre o projeto gráfico em si.

4. Qual o cenário do projeto gráfico de jornais no Brasil?

Exceto pelos grandes jornais das capitais, que foram influenciados por jornais estrangeiros, o projeto gráfico ainda é uma área do conhecimento pouco explorada pelos jornais brasileiros. Principalmente nas cidades do interior, o projeto gráfico ainda é visto como um “mal necessário”, uma prática que tem mais uma função técnica de produção do que de comunicação. Isso reflete a formação deficiente dos jornalistas que ora trabalham, ora conduzem esses jornais. Reflete também a reduzida oferta de cursos de design gráfico voltados para os meios editoriais, o que faz com que haja menos profissionais disponíveis para executar essa função, colocando essa tarefa na mãos de pessoas despreparadas.

É importante dizer que, quando eu me refiro a “projeto gráfico”, eu estou falando de design gráfico associado a design da informação e design da identidade visual. Algumas pessoas podem utilizar um software gráfico e organizar visualmente os conteúdos (matérias, anúncios, fotografias) numa página, chamando isso de “projeto”. Mas, isso não é um projeto gráfico em si, na medida em que não é fruto de decisões informadas sobre como organizar adequadamente o conteúdo, levando em conta aspectos formais, funcionais, metódicos e simbólicos. Muitos podem se orgulhar ao dizer que fazem projeto gráfico, já que o resultado final parece ser o mesmo: uma página com todo o conteúdo exigido, impressa e distribuída para os leitores. A diferença entre um projeto amador e profissional aparece com força não apenas no layout final impresso: ele se faz notar nos problemas dos bastidores, no jeito confuso como funciona o departamento de redação, nos resultados finais de venda, na dificuldade de leitura dos leitores e na consequente imagem negativa percebida. Enquanto um jornal não perceber essas diferenças, o projeto gráfico-editorial no Brasil ainda terá muito o que melhorar.

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7 comentários

  • acho que é legal perceber que esse ponto não é lá muito bem resolvido nos casos dos jornais em seus modelos eletrônicos, onde as notícias são bastante mais jogadas, sem essa preocupação que se tem no papel. Tanto na qualidade quanto na hierarquia comunicacional...
  • ótimo artigo... parabéns... moro num cidade de médio porte do interior de são paulo, Bauru, e infelizmente os jornais que tem aqui não se preocupam em nada com o design, isso porque temos cerca de 4 cursos na cidade. É incompreensível essa forma de tratar a informação em plena era visual... não é só falta de ousadia, é também imaturidade empresarial e comodismo.
  • Achei interessante o texto ressaltar o cuidado com que o projeto gráfico deve ter em não chamar a atenção para si, usando elementos acessório, pirotécnicos, modismos, que muito provavelmente, senão no primeiro instante, logo viram excessos que mais vão prejudicar a mensagem do que ajudar. Muitos dos elementos do projeto gráfico-editorial são 'transparentes' ao leitor (e quanto mais invisíveis, melhores são); outros pontualmente fazem também o papel estético, mas o bom projeto deve dar a todos eles 'função' (hierárquica, organizacional, de condução do olhar etc.). Um grande desafio no desenvolvimento do projeto gráfico, pra jornal e veículos periódicos similares, ao meu ver, é conseguir estabelecer regras de organização e de identidade, unindo questões de informação com estética, e ao mesmo tempo tornar a diagramação flexível. Acho que vale também lembrar a importância do trabalho em equipe. De nada adianta um bom projeto gráfico que, na prática, seja executado por um diagramador despreparado, descuidado, com fraco conhecimento em produção gráfica; e mesmo do profissional de texto, como jornalista que trabalha em conjunto com o diagramador para desenvolver as páginas, às vezes forçando quantidade de textos inadequadas ao contexto; seja com o editor, que não oferece recursos ao designer fornecendo fontes fotográficas, profissionais de ilustração etc. A qualidade do produto acabado é resultado de um trabalho constante de equipe.
  • Muito boa a aula (como sempre), prof. Ricardo! Penso que o design da informacao eh essencial nao apenas no projeto grafico de periodicos como em qualquer documento impresso. Vejo propostas comerciais de designers graficos completamente desalinhadas, com informacoes confusas e sem uma hierarquia clara da informacao. Trabalhos de aula frequentemente ignoram esses cuidados na comunicacao visual da mensagem. Mais uma vez, parabens pelo texto. PS: Desculpem, estou trabalhando num teclado onde os acentos nao foram configurados...
  • Infelizmente o design da informação ainda é pouco ensinado no Brasil. As 2 únicas universidades públicas, que eu conheço, e que tem essa disciplina dentro do curso de design, são a Universidade Federal do Paraná e de Pernambuco, por influência dos professores pesquisadores que trouxeram essa visão da Inglaterra (especificamente da Universidade de Reading). O design da informação é crucial quando se trata de apresentar sistemas de informação com caráter monossêmico, ou seja, um sistema com signos fechados, que evitam significados múltiplos (remetem ao mesmo sentido). Por exemplo, um pictograma de banheiro masculino não pode ser polissêmico: tem que significar só uma coisa. Além dos pictogramas, o design da informação ainda trata da sinalização de trânsito, design editorial, ícones de interface, infográficos, diagramas, visualização de sistemas complexos, sequência padrão de procedimentos (como instruções visuais), wayfinding e mapas de localização, design de documentos (bulas de remédio, formulários etc), só para citar alguns. O design da informação costuma deixar clara a diferença entre um desenhista e um designer gráfico. O desenhista pode fazer trabalhos de arte belíssimos, de encher os olhos, saber combinar cores, fazer tipos cantarem e, sem dúvida, seu trabalho é essencial. Mas na hora de representar informação as habilidades de desenho não bastam, e daí entra o design da informação em si (antes que os desenhistas se sintam prejudicados, nós designers da informação também precisamos muito de vocês, pois como ilustradores, alguns de nós somos ótimos designers rsrs).