Design velho numa sociedade nova: uma crítica ao futuro do design brasileiro

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Nunca se falou tanto sobre design como agora. O Design virou a palavra da vez, agora faz parte do discurso de administradores, políticos, economistas, pregando a importância do papel do design na inovação, no desenvolvimento, na sustentabilidade, e assim por diante.

Nesse cenário em que o design atrai cada vez mais o interesse e os designers estão sendo mais solicitados, a pergunta que se faz é: eles estão preparados para atender essas demandas? O tipo de designer que está sendo formado hoje nas universidades está à altura dos desafios que surgem à sua frente?

A resposta é: não. Por que?

O modelo de designers que estamos formando hoje é velho e ultrapassado, e não responde às necessidades que se impõem atualmente.

Esse modelo é resultado de algumas abordagens de ensino adotadas pelas faculdades de design. Alguns cursos focam demais no designer prático (formalista), deixando a teoria de lado por achar que ela é perda de tempo. Ou se concentram no design teórico, em pesquisas acadêmicas, deixando a prática de lado, imaginando que se a teoria por si só vai dar conta dos detalhes práticos.

Outros cursos focam no design politizado, imaginando que o papel do designer é salvar o mundo e que somos o centro de tudo. O que nós fazemos tem impacto global e cabe a nós defender a humanidade do mal e da devastação da natureza. Já outras faculdades não querem salvar o mundo, querem salvar o bolso e o emprego dos designers, atendendo às exigências de um tal de “mercado”, afinal isso é bom e ajuda o país.

Por último, quando não estão concentradas em salvar o mundo ou destruir o mundo, alguns cursos deixam de lado essa discussão e focam no modo de fazer as coisas, pensando que a tecnologia é a solução dos problemas e atende todas as necessidades.
Qual desses modelos é o melhor? Que tipo de designers precisamos formar para responder aos desafios que surgem na sociedade, principalmente agora que o design está chamando cada vez mais a atenção?

Na verdade aí está o problema: não temos que escolher um modelo ou outro. É justamente essa atitude que desequilibra a formação dos designers.

Todos esses modelos que eu citei tem pontos fracos e pontos fortes, e adotar apenas um deles não dá conta das necessidades de formação dos designers.

O que nós precisamos não é designers teóricos, designers práticos, designers politizados, designers consumistas ou designers tecnológicos.

Precisamos é de designers de valor. Eles devem ser criativos, construtivos, de visão independente, que não sejam escravos do sistema capitalista, nem heróis da humanidade com suas idéias pró-sustentabilidade, nem geninhos tecnológicos.

Precisamos de profissionais capazes de desempenhar seu trabalho com conhecimento, inovação, sensibilidade e consciência.

O papel das escolas de design é fomentar essas qualidades nos alunos e não apenas atender as normas de um sistema consumista que se preocupa só com lucros a curto prazo.

As escolas devem satisfação a toda a sociedade, e não apenas às empresas que empregam designers.

Os estudantes de design não deveriam apenas fazer projetos, com coleta de dados, pesquisas e relatórios, para resolver um problema prático ou teórico. Deveriam também fazer uma reflexão sobre o problema, em termos dos seus princípios e valores implícitos, e do significado disso para o design e para a sociedade.

O objetivo dos conteúdos ensinados nas faculdades deveria ser o de oferecer uma visão clara sobre a atuação do designer, ajudando-o a situar seu trabalho nos devidos contextos intelectuais, conceituais e históricos.

A consciência sobre os valores, tanto explícitos, quanto implícitos é o elemento essencial com o qual as matérias da faculdade podem contribuir para o ensino do design.

O designer deve pensar no impacto positivo do design para garantir a sustentabilidade ambiental, mas também deve refletir sobre o papel negativo do design como estímulo do consumo.

Devemos evitar professores de faculdades que nunca fizeram design na vida, que não tem a menor noção de como os designers pensam e criam, e que encaram a prática como nada mais do que uma demonstração de teorias.

Mas também devemos evitar professores que não tem nenhum respeito pelo estudo acadêmico, que acham que o design não passa de uma atividade empírica, que se aprende fazendo.

As faculdades devem formar designers que sejam conscientes sobre o impacto da prosperidade, do consumismo e do estilo de vida como forças sociais e culturais num sentido mais amplo.

Essa compreensão torna o aluno menos propenso a gerar soluções aleatórias com base em suposições erradas ou incompletas, e esteja melhor posicionado para gerar soluções informadas, abrangentes e completas com base em uma compreensão profunda dos valores que dão origem ao projeto de design.

Longe de ser um mero sonhador, um teórico distante ou um técnico sem imaginação, o designer valorizado é, em resumo:

• Aquele que possui uma compreensão crítica dos valores que fundamentam o design

• É corajoso, disposto a defender ideais sociais e culturais mais elevados do que o consumo a curto prazo que leva à destruição do meio-ambiente

• Enxerga no design o potencial para contribuir para uma qualidade de vida melhor e mais sustentável
• Tem consciência do seu próprio valor

Portanto, nota-se a necessidade de se desenvolver um modelo para um novo tipo de designer, munido de uma compreensão mais aprofundada e bem mais complexa da questão de valores, e da sua responsabilidade com o mercado, com a sociedade e com o meio-ambiente.

(Esse texto é baseado no artigo “O Designer Valorizado”, do autor Nigel Whiteley, disponível em:http://www.esdi.uerj.br/arcos/arcos-01/01-05.artigo_nigel(63a75).pdf

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5 comentários

  • Somos educados em sistemas cartesianos de ensino, tanto no médio quanto no superior. Somos domados a pensar e utilizar modelos prontos de conhecimento. Quando não o fazemos, somos tomados como irresponsáveis, relapsos, cujo caminho será o fracasso, inevitavelmente. Quando tentamos pensar diferente disso, logo vem algum agente desse sistema, nos enche de inseguranças e por via das dúvidas retomamos o caminho junto com as outras ovelhas do rebanho. Falta pró-atividade, falta interesse de quem quer mudar e de quem pode fazer as mudanças acontecerem. Os professores fingem que ensinam e o alunos fingem que aprendem. Não há construção do conhecimento. Há decoreba, receitas de bolo e o resultado são bolos sempre abatumados, rasos, que não crescem, sem profundidade. Não é só no design que isso acontece, infelizmente. Enquanto isso, nos resta apenas tentarmos, dentro de nossas humildes capacidades, passarmos adiante aquilo em que acreditamos. Seja isso contrário ou a favor da situação atual, mas Faça! Estamos pensando demais e fazendo de menos. Tomo para mim, que o nosso negócio é melhorar a vida das pessoas, satisfazer necessidades humanas, tendo em vista a sustentabilidade. Essa é uma opção dentro o nosso contexto atual. Mas cada cabeça, uma sentença. O "Estudar design", não pode estar longe do "Praticar design". Design é uma função prática, cujo produto é a aplicação de seus conhecimentos e técnicas. Não devemos ser só teoria e muito menos prática sem apoio teórico.
  • Com certeza em um mundo/ país perfeito, o que é ensinado nas instituições é isso. Não creio que haja um país onde isso aconteça. Na verdade, não vejo isso como um problema. Pra mim designer é isso que você falou na conclusão do texto, concordo plenamente. Mas o que eu vejo em palestras e nas próprias aulas em minha faculdade é que ser desta forma é mais como um diferencial. Os designers que se dão bem hoje em dia, estão bem porque pensaram desse jeito e lutaram e se mantiveram deste jeito. Eu tetnho amigos na faculdade que com certeza vão ser designer "peões", que são aqueles que ficam no Photoshop ou 3DsMax o dia inteiro fazendo o que dizem pra ele que é design. Isto não está certo, mas a faculdade permite que isso aconteça. Acaba vindo então da atitude de cada um na faculdade. Se você quer aprender, você vai aprender. Pra mim a faculdade forma o aluno, mas quem forma o designer é a pessoa que ele é.
  • A formação de profissionais despreparados nas instituições de ensino superior do Brasil não é exclusividade do curso de design. E, por vezes, não é a qualidade das aulas e sim a deficiência do método avaliativo e falta de rigor quanto as aprovações. A mentalidade estudantil, em grande parte, resume-se a uma carreira acadêmica discreta e fútil em contraste à "vida social", são fatores como estes que fazem com que as pessoas desacreditem no potencial de muitos profissionais realmente competentes.