Palavras a uma jovem designer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Design é arte? Não, design é soma. O estudo é fundamental. Agregar conhecimento nunca é demais, venha ele de onde vier: seja do matuto da cidadezinha do interior que faz banquinhos toscos de três pés ou do acadêmico doutorado no exterior.

Professores não são ‘pontes’ nem ‘facilitadores’. Antes, eles são gente. Alguns com muita experiência profissional e de vida. O tal matuto também é gente. Tão importante para nossa formação quanto o acadêmico, ele é provedor de conhecimento prático, da lida diária e da filosofia aparentemente barata mas igualmente necessária. Óbvio: há acadêmicos e matutos medíocres. Cabe a nós separá-los segundo nossa sensibilidade e critérios próprios. Diferentemente dos nossos computadores, os ‘HDs’ da humana raça funcionam melhor à medida que vão ficando mais cheios de informações e referências. Assim, é nosso dever abrir os olhos para tudo e para todos. Abraçamos uma profissão maravilhosa, que nos permite extrair de tudo (tudo mesmo) um pouco de néctar para nosso pleno desenvolvimento.

Não acredito em dom. Aquilo que as pessoas chamam de ‘dom’, prefiro chamar de acúmulo de experiências, sejam elas de vida, sensoriais ou profissionais. O fundamental é erguer as antenas e não ter preconceito de captar o novo e o velho com a mesma paixão. Ouvir Bach com o mesmo interesse que a gente ouve música eletrônica contemporânea. Não fechar os olhos para Basquiat só porque a gente gosta de Rembrandt. Ler Cony, Rui Barbosa ou Kundera com a mesma curiosidade infantil. Estudar psicologia, filosofia, línguas, desenho, economia, administração… Abastecer nosso ‘arquivo’ com o maior número de referências possível. Ter uma visão holística da profissão, não limitando nossa atuação àquela meia dúzia de conceitos pré-estabelecidos que um dia nos ensinaram a ver como certos e absolutos. Mais do que um computador, nosso cérebro se assemelha a um enorme jardim em constante crescimento. Sua arquitetura é a da evolução e da soma. Soma de cores e formas que geram outras cores e formas num movimento perpétuo de pleno desenvolvimento. Crie sempre ambientes que estimulem a criatividade. Freqüente lugares com o faro aguçado e a curiosidade crítica sempre alerta. Olhe com outros olhos. Fareje oportunidades e ângulos novos para seu repertório estético. Faça com que seu universo trabalhe a seu favor, alimentando você constantemente. Diplomas e certificados? Acumule o mais que puder, mas não os colecione. Colecione, sim, o conhecimento que esses papéis apenas representam. Isso é para sempre! Dê igual importância aos bancos da universidade e aos bancos da praça. Até dá para ser um profissional completo sem os dois, mas o caminho não tem a mesma beleza e a paisagem perde um pouco do viço. Design é arte? Não! Design é soma. Soma disso tudo que a gente já falou. É arte, ciência, religião, filosofia, psicologia… É conteúdo! É conhecimento na concepção mais sublime da palavra! Design é algo muito grande para ser enquadrado numa definição. É igualmente grandioso para ser colocado à margem de qualquer atividade (pois ele pode estar inserido nessa atividade!)

Por fim, questione sempre. Faça intervenções imaginárias no trabalho alheio. Modifique e crie conceitos e linguagens. Faça com que a palavra ‘design’ ganhe um novo significado para você e para sua vida. Não deixe que as pessoas tóxicas te contaminem com negativismo acerca da profissão. Como toda atividade, a nossa tem altos e baixos, mas ela é responsável muito mais pelos prazeres do que pelos reveses. Invista nessa nova forma de ver as coisas. O investimento voltará para você multiplicado e revigorado. O mundo nos oferece uma volta completa todos os dias, com direito às cores, às sensações, às novas experiências, vivências e ainda nos permite levar junto as pessoas que quisermos.

(texto escrito em abril de 2005 – Copyright by Morandini)

www.morandini.com.br

Dicas de saúde e bem estar para designers

  • Publicitários e arquitetos não são gente feia, gente do mal (e nem amigos do capeta). Eles são apenas profissionais de outras áreas.
  • A regulamentação será uma coisa boa mas não resolverá nada sozinha. É possível fazer muita coisa agora mesmo.
  • Existem PC e MAC. Ambos funcionam bem nas mãos de gente talentosa. Tem quem prefira um e quem prefira o outro. Simples assim.
  • Corel Draw não causa lepra. Não é preciso mandar quem usa esse programa para o isolamento (nem pra outro lugar…).
  • Há várias abordagens ligítimas para o design. Quer você concorde ou não, elas continuarão a existir.
  • Ter um ataque de raiva a cada vez que alguém diz ‘logomarca’ ajuda a entupir suas artérias fazendo você morrer mais cedo. De infarto!
  • Ficar nervoso com ‘sobrinhos’ e ‘micreiros’ também aumenta consideravelmente suas chances de morrer mais cedo. De AVC!
  • Ter crises existenciais a cada vez que seus clientes dão palpites, aumenta em 50% suas chances de morrer mais cedo. Com depressão!
  • A vida não se resume ao design. Sexo, cinema, viagens, literatura e esportes são ótimos também.
  • Sempre dá pra discordar e argumentar sem perder a elegância, a educação e a razão.
Lembre-se sempre: se todos pensassem, agissem e trabalhassem da mesma maneira, ainda moraríamos em cavernas.
Não leve meus textos à sério. Eles são apenas para relaxar e diminuem em 70% a chance de você ter depressão, AVC ou infarto.
Texto © Morandini. Pode ser reproduzido desde que citado o autor e contenha o link www.morandini.com.br

Ah, os designers, esses seres arrogantes…

Não sou psicólogo, claro, mas sou profundamente interessado na mente humana. Gosto de tentar entender como ela funciona (ou não) e analisar o comportamento de grupos e pessoas. O mundo do design é um terreno fértil para isso. Somos muito diversos na forma de agir, pensar e trabalhar. Essa diversidade toda renderia material de sobra para uma tese de doutorado, mas a questão que quero abordar é outra: a arrogância.

Vira e mexe, dizem que primamos por ter o nariz empinado. Sermos deuses. Sermos donos absolutos da verdade. Definitivamente, não sou o exemplo mais bem acabado daquilo que as pessoas esperam de um designer. Frequentemente misturo o design com a arte, visto roupas meio normais, não tenho a fala afetada, não uso termos complicados e minha única excentricidade (!) é cortar meu próprio cabelo há mais de 20 anos.

Mesmo não tendo a imagem estereotipada de um designer (mas em nome da ‘ciência’), serei o voluntário para esse breve e superficial estudo sobre o comportamento dessa raça tão estranha e sua gente tão esquisita. Entendo por arrogantes aquelas pessoas que estão certas a respeito de tudo o tempo todo. Ora, designers fazem design! Sendo um deles, pressuponho, então, que eu conheça mais sobre design do que os não-designers. Sou contratado para resolver os problemas dos clientes nessa área. Assim, quando emito uma opinião, é no sentido de colocar minha bagagem de conhecimento a serviço do cliente. Oferecer o melhor. O que funciona.

É claro que cada cliente é único e cada trabalho é um aprendizado. Por conta disso, quando estou caminhando no território dele, o cliente é ‘o cara’. Devo ter humildade para aprender, ouvir (de verdade) e absorver muito. Passado esse momento, é hora de arregaçar as mangas e ir para a prancheta (prancheta é força de expressão, apesar de ter uma de estimação aqui no estúdio…). Aí o show é meu (nosso)! Visto a camisa do cliente e faço suar a minha em busca de resultados. Extraio a essência do briefing e devolvo o meu melhor! Invado a área e tento marcar o gol com a propriedade e confiança de um Zidane (na maioria das vezes sem dar cabeçadas no Materazzi!). É para isso que sou pago e é isso que sei fazer razoavelmente bem!

Até mesmo no meio do processo, mantenho as antenas erguidas e os ouvidos ligados. Se os redirecionamentos do cliente forem pertinentes e bem fundamentados, não vejo o menor problema em desviar a rota. Caso contrário, é minha vez de mostrar um argumento bem alicerçado e coerente a fim de mostrar para o cliente o porquê daquele caminho. Sei que o cliente não é ‘da área’, então procuro usar termos compreensíveis e aceitar ‘na boa’ os termos errados que ele possa usar (ele deve fazer o mesmo comigo…). Autoconfiança, meu povo,  não pode ser confundida com arrogância!

Ser bom naquilo que você faz é fruto de trabalho árduo, estudo, dedicação, interesse (e, por que não, motivo de orgulho?). Com alguns quilômetros de rodagem e MUITA coisa para aprender ainda, caminho no terreno do design com certo conforto. Diferentemente de outras praias, aqui costumo me sentir em casa. Tenho consciência, no entanto, que não sei nem nunca saberei tudo. É essa ignorãncia que me tira da cama todos os dias e me faz vir para o estúdio, nessa deliciosa mistura de trabalhar e aprender.

Vejo meu trabalho como outro qualquer. Chego no estúdio às 7 da matina e vou embora lá pelas 6 da tarde. No meio disso, dou o meu melhor. Tentaria dar o meu melhor, também, caso fosse  quitandeiro, jogador de futebol, médico, mecãnico ou sapateiro (como foi meu avô).

Tenho certeza que com você é assim também!

Agora, se você quiser conversar sobre gastronomia, economia, física quântica, televisão ou astrologia, definitivamente não sou o cara mais indicado para falar, mas será um prazer te ouvir.

Um abraço:

Morandini

Texto © Morandini – Pode ser reproduzido desde que citado o autor e o link www.morandini.com.br

A China é aqui! (que saudade dos logotipos de 199 reais…)

Houve um tempo em que a maioria dos designers reclamava da concorrência desleal. Enquanto alguns investiam quatro anos numa faculdade, faziam pós-graduação e buscavam atualização e informação num sem-número de palestras, seminários, livros e pesquisas, os pseudo-designers deitavam e rolavam, ´roubando’ clientes por praticarem preços absurdamente baixos. Proliferavam sites oferecendo logotipos por 199 reais ou menos… E, quando a coisa parecia ter chegado no nível mais baixo, eis que surge uma novidade! Um novo site (por enquanto só conheço um) está promovendo uma espécie de leilão virtual de logos. O sistema funciona assim: o cliente faz uma oferta (chama-se ‘prêmio’) de 195 reais. Em seguida o site publica o perfil desse cliente e o valor do tal prêmio. Aí os ‘logotipeiros’ interessados enviam suas propostas para concorrer àquela ‘fortuna’ toda (80% do valor, pois os 20% restantes vão para o site). São 50, 60, 100 layouts enviados para que o cliente escolha a mais bonitinha. Dessas dezenas ou centenas de marcas, apenas a eleita receberá o pagamento. Os demais, trabalharam de graça!
Acho que um modelo de negócio só é válido quando contempla de forma JUSTA todas as partes envolvidas. Além disso, penso que um designer (ou qualquer outro profissional) não deva trabalhar por uns trocados, mas, sim, por uma remuneração justa. É a tal da dignidade profissional. Vejo nesse tipo de prática duas questões distintas e diametralmente opostas. A primeira delas é o prejuízo que isso causa ao mercado. Muitos podem dizer que os clientes desse tipo de site não nos oferecem perigo por estarem em outra esfera. Talvez… Penso que, aos poucos, essa cultura do ‘baratinho’ vá se disseminando e coloque o design na condição de algo menor, abrindo ainda mais a distância entre os grandes e pequenos clientes. Essa ‘comoditização’ do design fará surgir concorrentes. Logo aparecerá um site oferecendo o mesmo produto por 150 reais. Em seguida outro, cobrando 120, até atingirem o piso, seja lá qual for ele, e passarem a brigar pelas migalhas.
A segunda questão é que a esse tipo de prática gera uma enorme sub-classe profissional. Em sua maioria, os criadores de logotipos desse espaço são profissionais de outras áreas que se aventuram a mexer em softwares gráficos a fim de defender uns trocados. É na base do ‘bico’ mesmo. Gente sem formação, sem conhecimento e sem ‘estrada’, que joga meia dúzia de ideias para tentar fisgar o prêmio. Via de regra, os trabalhos que vi no site são sofríveis. Marcas medíocres com graves problemas de construção e de uso limitado. Isso colabora para turvar a imagem verdadeira dos profissionais do design, que dedicam suas vidas ao estudo sério das questões envolvidas no desenvolvimento de uma marca. Passa a impressão de que criar um logotipo é um simples exercício de software a ser feito nas horas vagas. Coisa para amadores de final de semana, com seus programinhas piratas e suas soluções instantâneas. Clicou aqui, jogou um gradiente ali, está pronto!
Na verdade, estamos falando de duas coisas distintas, mas que acabam se confundindo na cabeça dos leigos. Design, antes de mais nada, é projeto e solução. Demanda tempo, know-how e expertise. É fruto de muito trabalho, metodologia e, acima de tudo, conhecimento, coisas que só um profissional pode oferecer. Soluções rasteiras e de ‘baciada’ podem ser tudo, menos design.
É impossível não estabelecer uma ligação com os produtos chineses. Cópias de qualidade duvidosa, a maioria deles tem apenas aparência. Não funcionam. Não são confiáveis. Além disso, na outra ponta da cadeia produtiva, há mão de obra baratíssima. Condições de trabalho deploráveis. Emprego de pessoal desqualificado. Da mesma forma, esse site (o nome dele não foi citado nenhuma vez para não fazer propaganda) oferece logotipos que têm apenas aparência, não funcionam… Além de empregarem mão de obra sem nenhuma qualificação.
O pior disso tudo é que há uma minoria que atua na área (se são profissionais ou não já é outra história!) que defende esse tipo de negócio, participando e incentivando os outros a participar. Os argumentos normalmente focam na necessidade dos novos profissionais e estudantes construírem seus portfólios e entrarem no mercado. Penso que há maneiras mais bonitas e dignas de se entrar na profissão do que pela porta dos fundos. Um estudante ou profissional em início de carreira que se sujeitar a trabalhar nesses moldes, estará começando da pior maneira possível. Estará desenvolvendo uma visão completamente distorcida dessa atividade tão apaixonante. Se é para trabalhar de graça, ofereça seu serviço para entidades filantrópicas. É mais coerente, mais íntegro e mais legítimo.
Se alguém puder me provar o contrário, com um bom argumento, eu mudarei minha opinião. Nesse momento, porém, acredito que design não é nem nunca será commodity. Se me convencerem, a partir de amanhã, passarei a brigar por preço. Só por preço. Deixarei de lado todas as minhas ideologias bobas e virarei, tipo assim, um atacadista do design.