
Estava assistindo a uma masterclass do David Carson, e ele citou algo que me chamou a atenção e me inspirou para escrever este artigo.
Ele mostrou um projeto de sinalização para os andares de um prédio. Era algo visualmente simples e bem estruturado, mas tinha um detalhe ali que te fazia travar por um segundo.

E aí ele mostra uma proposta que desenvolveu para uma vitrine num shopping. Dessa vez algo menos racional e mais intuitivo. Menos cartesiano, mais emotivo. Uma peça tipográfica densa, cheia de camadas, daquelas que exigem que você gaste um tempo ali. O cliente, claro, veio com o clássico: “temos algumas questões com a leitura”. Feedback oficial: ”temos um problema com a leitura’’. Carson ri.
Mas para Carson, ali estava justamente o ponto. Se o design é tão limpo e assertivo que você o ignora depois de um milésimo de segundo, ele falhou em estabelecer uma conexão humana. Olhar e seguir adiante não é o mesmo que perceber.
E foi isso que senti quando bati o olho na peça da sinalização do prédio, por exemplo. Numa simples peça que serve para informar o andar, senti o ‘’uau’’ com algo tão simples. Sabe quando você olha e precisa confirmar o que acabou de ver? Senti uma conexão com aquilo. A tal conexão humana com o design. Não passou ‘’batido’’.
Carson expressa sua frustração: há uma falta de rebeldia no design atual. Para ele, as coisas ficaram limpas demais, resolvidas rápido demais. Aquela ideia de que o design também tem a obrigação de fazer a gente parar e olhar de novo ficou ecoando na minha cabeça.
Será que a clareza virou um problema? Ou a gente está confundindo as coisas? Ou os clientes menos ‘educados’, ou experientes, ou menos criativos, ou medo pois não lhe falta a visão pra entender e arriscar acabam ‘bloqueando’ nosso processo? É preciso saber o que está fazendo para correr riscos, afinal. Mas o feedback foi claro: ‘’temos um problema com a leitura’’.
Não porque ele achasse a crítica errada, mas porque o objetivo dele não era a leitura tradicional. Era interrupção. Pensa bem: em um shopping, onde o seu olho desliza por centenas de vitrines sem fixar em nada, talvez a função do design não seja facilitar a leitura imediata, mas sim fazer você parar. É quebrar o fluxo automático.

Essa conversa toda me fez pensar na estrutura que a gente herdou do modernismo. Fui dar uma olhada de novo no Josef Müller-Brockmann e naquela turma do Swiss Design. Aquela grade rígida, a organização matemática do espaço, as fontes tipo a Akzidenz-Grotesk.
O que eu percebi é que ali não tinha frieza. Tinha muita intenção. A estrutura para eles era um método, quase uma responsabilidade de organizar o pensamento com precisão. Tinha uma disciplina enorme ali, mas também tinha muita convicção.

Talvez o problema não seja a objetividade em si. O problema surge quando a estrutura deixa de ser uma escolha consciente e vira um padrão automático, um “copia e cola” de segurança. A gente acaba usando o grid como zona de conforto, e não como ferramenta.
Enquanto cozinhava esse artigo na cabeça, troquei uns whats com o Gil da Aliens Design. Falei do grid.Ele disse: ”Grid pra mim é suporte, quase um guide, mas não religião!!! Senão tu trava!”
Não quero travar. Fui browsear.
Aí encontro o trabalho do Mike Joyce no projeto Swissted, que eu acho um exemplo fantástico dessa mistura entre o grid e a rebeldia. Ele pega bandas de punk e hardcore e faz cartazes com todo o rigor suíço. É tudo alinhado, limpo, com cores vibrantes e um grid evidente.
Não tem nada caótico na forma. E mesmo assim, tem uma energia absurda.
A rebeldia ali não está em quebrar a grade, mas no contraste. É colocar uma cultura que é puramente anti-sistema dentro de uma linguagem que nasceu para ser racional. Esse choque cria uma vibração que é muito interessante.


No fim das contas, a provocação do Carson ganha outra camada. Talvez a briga não seja clareza versus caos, mas sim previsibilidade versus presença. Na real, a briga é boa no design. Um design que não causa briga não é bom o bastante.
Um cliente de Nova Iorque uma vez me disse durante um briefing para um job: ‘’we must have that Clash! You know that clash?” Clash = Confronto. Traduza como quiser, mas é conflito. Use o 3D com 2D, realismo com abstrato expressionista, brutalismo com rococó. Tudo pode desde que haja intenção, função e cause reação emocional.
Quando a gente reconhece um padrão de cara, o olho desliza. Não tem atrito, então não fica na memória. E ter um pouco de fricção não é um erro. Ambiguidade não é falha.
É óbvio que em uma placa de hospital ou de trânsito a gente precisa de assertividade total. Ali, a função manda. Mas quando a gente fala de cultura, de capa de disco, de cartaz ou de identidade, por que não deixar um espaço para essas micro abstrações? Pequenos desvios que fazem o olhar desacelerar.
Pode ser um número que você confunde com uma letra por um instante, ou um alinhamento que foge do óbvio. Coisas que não impedem você de entender a mensagem, mas que prolongam o tempo que você passa com ela.
Acho que a maturidade no design passa por aí: entender quando a gente precisa ser o guia que entrega a informação na mão e quando a gente pode ser o artista que convida para uma descoberta.
Ordem sem intenção acaba ficando fria. Ruptura sem consciência vira só ruído. O lugar bom de estar é ali no meio, onde o design não apenas informa, mas faz a gente parar e se conectar.











