adaptações e modificações

Para o designer, nada é mais importante do que as tendências. E para que elas aconteçam, é necessário ocorrer mudanças e transformações. E estas não podem somente acontecer no ambiente que o cerca, mas no próprio indivíduo.

Esta mudança se faz interessante pelo simples fato da percepção aguçar-se para novas tendências e adaptações. A cadeira com rodas é um exemplo dessa adaptação, e desta percepção de tendência: uma pessoa absorveu todo o processo histórico e notou que a sociedade ficaria cada vez mais acelerada; e com as tendências tecnológicas e estéticas criou uma cadeira cujo um leve esforço de pernas e pés faz a locomoção rápida.

A adaptação das tecnologias certamente choca o ambiente onde é inserido. Mas a habituação é rápida e constante se esse objeto é mais útil e mais prático do que seu predecessor. Porém, nesta sociedade consumista, a habituação torna-se mais regular e menos espantosa devido ao fato da chamada “inovação” acontecer em um número muito maior. Quantitativamente, não qualitativamente.

A adaptação advém da prática da absorção do meio. E esta adaptação gera a modificação. Modificação de todos. Do meio. De si.

Adapte para se adaptar. Modifique para se modificar.

atividades coletivas

Todas as atividades são coletivas.

A teoria da atividade nasceu em meio à Revolução Russa do começo do século XX e foi inspirada em modelos coletivos para a cooperação e construção. Estes modelos, que ao meu ver não definem o caráter cooperativo real do ser humano, tentam abordar a atividade de uma maneira consciente e não instintiva. Porém, a elaboração e toda a sua argumentação é deveras correta. Como afirmei na primeira frase do texto, “todas as atividades são coletivas”, e de fato são.

É indiscutível: qualquer ação, mesmo que do maior âmbito individual, tem sua consolidação ou base num pensamento coletivo. Padrões culturais, regulamentares e até instintivos são coletivos.

Mas o que não fica claro é: se todas as atividades são coletivas, o que faz o modelo comunista, por exemplo, dar errado?

Na minha definição, é a personalização e as idéias humanas. As idéias humanas, por maior concretização e construção coletiva que seja, toma uma interpretação individual e cabe ao sistema regente definir se é ou não é certo, tomando as medidas cabíveis. A personalização vem de um raciocínio puramente social onde hiberna a chave para o reconhecimento. Reconhecimento vem através de diferenciação, e diferenciação só vem à tona a partir da personalização.

Pensamento puramente mercadológico e político, não? Obviamente que não. Se pararmos pra pensar na caça primitiva onde tarefas eram definidas a partir de capacidades, isto já se torna personalização.

No design, as tarefas são definidas um pouco diferentes.

De acordo com o pensamento coletivo, o indivíduo projeta a personalização dos outros. É algo estranho de se conceber, mas é o que ocorre. Aí sim o pensamento é mercadológico, político e milhões de derivações coletivas à mais.

complexo

Nada é tão simples quanto parece.

Ficaríamos loucos se parássemos para pensar em todos os sistemas que englobam os objetos. A complexidade de tudo fora inventada pelo humano, mas nenhum deles conseguirá saber de todas elas. É humanamente possível fazê-las, mas humanamente impossível conhecê-las.

Puxando para o lado físico, apesar de todas as teorias e cálculos para a realização e materialização dos objetos, não conhecemos a imensidão daquilo que lhe circunda. Microcosmicamente falando, sequer imaginamos os problemas e as soluções que uma faca pode trazer: a inserção dele num ambiente residencial e sua influência pode mudar trejeitos e comportamentos. Pensemos no planeta: o que esta faca representa? E para o Sistema Solar? E para o Universo?

Por menor que este objeto seja, ele exerce uma influência neste Universo. E acredito que este objeto seja um universo. Pode não ser um universo material; paupável; mas toda a complexidade ideal e analítica que este objeto comporta, se quantificássemos, não caberia no Universo.

Só cuidado para não se cortar.

necessidades

É comum projetarmos um produto tendo como ponto de partida o usuário.
Nada mais óbvio, já que será ele o consumidor de tal produto.
Porém, é necessário saber do que este usuário realmente precisa e o que é excessivo. Precisamos mesmo de mais cadeiras? Será que o ambiente onde tal usuário está inserido é conivente para mais um produto ser projetado?

Contrariando aos pensamentos: sim, sempre haverá espaço para mais um produto. Porém, devemos considerar suas relações para com o usuário e para com os outros objetos. Relações afetivas, financeiras, sociais e históricas deverão ser sempre abordadas de um modo analítico, sempre afim de se obter novas relações e novos comportamentos. Por conseguinte, novas necessidades.

O humano, a cada geração que passa, insere uma nova necessidade em seu meio de sobrevivência. E para cada pessoa dessa geração, dever-se-á inserir pelo menos mais uma centena de necessidades incontestáveis à sua sobrevivência.

Pensar em um produto a partir de uma necessidade não tão necessária assim é bastante fácil. Agora, realmente parar para pensar na necessidade humana e o que ele realmente precisa para sobreviver é trabalhoso e necessário.

Necessitamos de menos necessidades.

significados

Como marinheiro de primeira viagem, devo explicar minhas intenções para com sua leitura: eu gosto de discutir sobre assuntos que quase ninguém fala. Quanto mais escondido, melhor. Quanto mais impensável, melhor também. Quanto mais intocável, melhor também também. A discussão tem um significado muito grande para mim, logo, depois de ler este texto, faça o favor de concordar ou discordar comigo. E para você que sempre está em cima do muro, agora é hora de você começar a ter alguma opinião, não?

 

Falando em significados…

 

Cada objeto tem o seu significado. Cada pessoa dá o significado que lhe convém – consciente e subconscientemente. Porém, todo significado é atribuído em decorrência do contexto inserido. Tempo, ambiente, sentimento: todas estas variáveis interferem para a atribuição significativa.

 

Logo, podemos concluir que para um mesmo objeto há infinitas atribuições. Porém, é intrigante notar que estas variáveis também podem fazer com que muitos significados afunilem para o mesmo. E em diferentes pessoas. Exemplificando: um grupo nos tempos atuais vai ao museu e contempla uma jóia dos anos 80. Deixando de lado quem tem certo apreço por essa década – tsc, tsc – e conseqüentemente gostaria da peça, a maioria esmagadora não acharia nenhuma graça nela. Isto é, para os padrões atuais, a peça seria feia.

 

O estranhamento seria maior se esta peça estivesse sendo usada por alguém no nosso cotidiano. Certos objetos estranham a nós mesmos sendo usados como sua função lhe pede. Agora imaginemos atribuir novos significados aos objetos corriqueiros.

 

Não é difícil mas, sim, estranho.

 

Aos olhos de um adulto, ver uma criança brincando de galopar com uma vassoura entre as pernas é apenas o resultado da imaginação fértil infantil. Porém, se pensarmos, a criança deu um novo significado à vassoura. Agora ela é seu cavalo.

 

Muitas das significações mais antagônicas são feitas na nossa infância. Tudo vira brinquedo, tudo vira um universo paralelo. E na memória ficam apenas os significados sentimentais: não lembramos se achávamos aquela vassoura azul bonita; se aquele vestido de nossa avó era ridículo; ou se aquele chapéu do avô estava fora de moda. Mas sentimos uma agradável sensação quando atrelamos os significados à nossa memória. Enfim, vivemos destes  significados.