O design dos esnobes

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design esnobe

Lembra que o design nasceu em plena revolução industrial para possibilitar que mais pessoas tivessem acesso aos bens de consumo que antes eram restritos apenas a uma elite endinheirada? E que designers são sujeitos que colocam a cabeça para funcionar na busca de soluções que reduzam custos de produção e ao mesmo tempo encantem os usuários dos produtos? Pois é — o design é eminentemente um conceito que nasceu para traduzir o melhor da civilização: desde a escolha correta do material a ser usado (e como será descartado ou reutilizado), passando pelo aspecto emocional-simbólico-funcional, o ambiente, a embalagem, a marca, a informação e até o processo produtivo mais inteligente. O bom design é bom para todo mundo.

Dito isso, é de se perguntar como é que um conceito tão associado ao que é popular, simples, bem pensado e consciente pode ter se transformado em sinônimo do que é caro, supérfluo, exclusivo e fútil.

O designer italiano Bruno Munari, no seu inesquecível “Das coisas nascem coisas”, diz que o luxo não é uma questão de design, mas do triunfo da aparência sobre a substância e que a ostentação só serve para impressionar quem permaneceu pobre. E ele é ainda mais radical quando diz: “o luxo é, pois, o uso errado de materiais dispendiosos sem melhoria das funções. É, portanto, uma estupidez.”

Não ouso ir tão longe inclusive porque não tenho moral para tanto e não quero desprezar a importância econômica (e até social) da indústria do luxo. Um mundo reduzido ao essencial não tem graça e o conceito de supérfluo é o mais elástico dentre os existentes justamente pelas diversidades culturais e existenciais. Acredito que as coisas não são tão simples e o design tem um papel importantíssimo na tradução do valor simbólico do objeto. Isso pode levar a um paradoxo onde às vezes só o luxo pode traduzir o significado do objeto. Que fique entendido, então, que esse texto não é um libelo contra o luxo, mas uma tentativa de esclarecer conceitos que foram equivocadamente misturados.

Penso que uma boa saída é se analisar o conceito de nobreza. A palavra nobre, que vem de nobilis, significa, originalmente, o que merece ser conhecido, o que tem valor. Depois se tornou sinônimo de notável, célebre, ilustre, generoso. E o bom design é tudo isso mesmo.

Já a palavra esnobe tem origem na sigla s. nob (sem nobreza). Na antiga Inglaterra servia para designar os novos ricos, aqueles que tinham dinheiro, mas não berço. Que tinham poder, mas não educação. O comportamento mais freqüente e esperado dessa turma (naquele tempo e ainda hoje em dia) era justamente a ostentação gratuita, o exibicionismo, o comportamento inconveniente, o desperdício de dinheiro. Em algum grau, isso poderia traduzir bem o luxo, não acha?

Assim, parece-me que essa analogia vem bem a calhar: o design é nobre, o luxo, esnobe!

Mas antes que alguém se ofenda, cabe lembrar que somos feitos tanto de nobreza e como de esnobismo, como convém a seres humanos normais de sangue vermelho.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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28 comentários

  • bom rant. concordo inteiramente com o que foi dito aqui. afinal o papel do designer também é ajudar a vender um produto (entao os gráficos nem se fala). o problema surgiu quando a palavra "design" se tornou uma buzzword comercial e desgastada ao ponto de perder grande parte do seu significado real. já agora, em portugal um "novo rico" nos termos descritos ali em cima também é chamado de "pato bravo".
  • De saída, parabéns pelo excelente texto! De fato, é uma questão perturbadora. De um lado, sabemos que uma das principais "ferramentas" utilizadas pelas empresas para agregar valor aos seus produtos e serviços é o design. Porém, se a limitação for somente essa, seremos eternos esteticistas (não que o conceito de "belo" não me seja caro) e "ferramenteiros" essenciais no processo do marketing enquanto provedor de solução de implantador de conceitos. De fato, os produtos são mais ou menos caros, mais ou menos glamurosos, em grande parte, pelo processo de concepção do design. Por exemplo, porque um casal paga, muitas vezes, o dobro do valor em um sofá de "design sofisticado", se comparado a um sofá de mesma matéria-prima e conforto de uma "Loja Marabrás", por exemplo? Pelo valor agregado do design! Não é a toa que este artigo tenha tantos comentários, pois o tema é muito amplo e ciclíco. Como a espiral eterna, de Leo Brower. Um beijo!
  • Muito bem falado Galdino e Eduardo. O que deve ser levado em conta, é que o trabalho do designer apenas faz parte do processo. Ele está lá, mas a participação efetiva de suas atividades passa por pessoas (normalmente donos das empresas ou responsáveis pelo setor na empresa). O que gerar volume de venda com um baixo custo (lucro) será sempre o escolhido. Ter designers no meio desse processo (Como no caso da Grendene citada), não é escolha dos designers.Infelizmente.
  • Muito bem observado, Fernando. A auto-crítica é importantíssima também na tomada de certa opinião. Vale mesmo uma reflexão. Se formos comparar com a classe D e E, pagar um barãozinho e pouco num iphone parece disperdício se pensarmos numa população que sustenta a familia com trezentas pilas... Dureza, né? E é essa maioria que acaba sofrendo pela falta de tudo. Falta de transporte, falta de emprego, de produtos bons, etc. Mas de qualquer modo, a culpa também é daqueles que produzem pra essas classes também, não? Afinal, os móveis das casas bahia num poderiam ser melhores apenas tendo um designer bom e experiente em seu time, aplicando materiais bons e baratos, com um projeto condizente com o espaço da casa, os gostos, etc, desse público? Um exemplo é a Grendene (num sei escrever o nome, mas é aquela marca de sandalinhas lá...). Vi uma palestra do designer deles, e a equipe deles se preocupa com produtos de qualidade tanto para pessoal de baixa renda quanto de mais alta, com linhas de produtos desenhadas inclusive pelos Campana brothers. Isso é bem legal!
  • Eita. Sinceridade q vi o número de comentários deste post crescendo e clap clap clap galera, coisa linda. Bruno Munari falou tá falado... mas tem um probleminha nisso tudo. Eu acho q o cara que paga 10 mil num sofá, sei lá quanto em um note de ouro e coisa e tal tem uma difereça simples... ele nem percebe isso. É sério. Acho que chega num ponto na vida de uma figura que ele se desliga e nõ tem mais noção do que está fazendo, nem do efeito daquilo, é como uma anestesia, ele sabe que o machucado está lá, mas simplismente não sente a dor. Tenho quase certeza q isso pode se aplicar a todos nós que estamos aqui conversando, pq por q estejamos falando sobre os hábtos de consumo de uma galera q é 0,00001% da humanindade desprezamos o fato de que de um modo geral estamos muito próximos disso. Todo mundo aqui sustenta, pelo menos, o luxo de ter um computardor com acesso a internet e a formação (ou pelo menos conhecimento) em uma área de ensino superior com um perfil bem elitista (alguém discorda?). Acho q a gente pode reparar mais nos luxos que sustentamos, mesmo q pareçam mediocres perante os citados. Mais uma coisa. Todo mundo aqui já deve ter ouvido sobre a profusão da classe C. Imagine se o mesmo conceito de sucesso, bom-design e consumo foi/é apresentado continuar, não há recursos para tanto consumo, não há espaço para tanto lixo. Seu carro é um luxo. Seu apple é um luxo. Seu banho quente é um luxo. Pensemos. Ou não...
  • Acho que estamos entrando numa área muito mais cultural do que técnica para avaliarmos isso. Antes, era bem isso que eu quis dizer e o Raphael explicou. è certo salientar que afirmei, mas não aprovo esse tipo de postura. Meu comentário foi feito muito mais como constatação que quqlquer outra coisa. Sobre gastar em luxo (independente de que forma seja), é algo que nem se o design tivesse um valor reconhecido por essas bandas, a influência diminuiria. è algo mais pessoal e mais complicarmos de analisar. Luxo sempre vendeu independente do seu grau de exagero. Mas com bons olhos vejo que um sentimento mais social esta em franco desenvolvimento. Acho que isso no futuro pode coibir ou vulgarizar o gasto em luxo. Mas não sei se acaba. Se dá dinheiro, o cara faz.
  • muito bem observado, raphael, quanto ao clips. me pegou no contrapé. Mas, de qualquer maneira, convenhamos, seria difil subir o preço de um clips, né? hahaha! e o lance de matar a avó, foi exagero. foi mal, mas acho que entra certinho no exemplo da torneira aberta. Vc faz algo ruim, sabe que é desperdício (em geral, parar 10.000 num sofá é desperdiçar dinheiro que podia ir pra outras coisas... sei la! pro terremoto da china pode ser!), mas cala a consciencia dizendo que teriam outros que fariam no lugar, então melhor eu fazer que aí eu que ganho... sei lá... num gosto disso... são necessidades descabidas, sabe? não estou tentando impor algo de cima pra baixo, fazendo todos engolirem a bic e chutar pra lá uma caneta pouco mais cara, mas uma Mont Blanc num é tão boa assim pra valer o que custa. Nem a cadeira vermelha é tudo isso... e porque pessoas torram dinheiro com isso se poderiam ajudar mais? fazer coisas melhores com ele, como adotar o estudo de algum garoto? Isso tudo não é pra se pensar? não há algo de errado? o design deve ter seu papel social, e fãz parte desse papel atribuir às coisas o valor que lhes cabe, sem super-valorização por motivos kitchs como se faz...
  • verdade, a conversa continua muito boa mesmo, mas vamos discutir sobre o assunto numa boa, respeitando a opinião alheia e discutindo os pontos de cada um. concordo com o Eduardo quando ele diz que produtos históricos do "bom" design possuem preços exorbitantes simplesmente pq são considerados históricos, ou de etiqueta... mas é verdade tb que nem todos os produtos do "bom" design, e que mesmo assim tb são históricos, possuem preços altos. Como exemplo eu posso citar os clips de papel ou a caneta Bic, que possuem um design simples e historicamente são muito importantes para o design, e mesmo assim continuam acessíveis a todos. (A não ser aqueles que queiram uma Mont Blanc) Tb não penso que quando o Ed tenha dito “Se vc designer não busca produzir pra pessoas que compram luxo, com toda a certeza alguém vai fazer” com a conotação de que se ninguém se vc não matar sua avó, ela irá morrer mesmo... acredito que não tenha sido essa a conotação. Talvez tenha se referido aos designers que mesmo sabendo que luxo é superficial, acabam criando produtos de luxo para suprir uma necessidade de algumas pessoas... Não sei, talvez eu não pense que suprir uma necessidade de algumas pessoas que queiram um sofá de 60 mil reais seja o certo para o design, mas certamente as pessoas continuaram querendo, e certamente designers continuaram produzindo para estas pessoas. Talvez eu tenha uma idéia muito romantica do design para desperdiça-lo em coisas luxuosas demais, como foco no superficial... mas vivendo e aprendendo... e mudando de opinião se for o caso, mas não hoje.
  • Muito bom esses de pontos... O verdadeiro manifesto funcionalista de um dos melhores designers que sairam de ulm. O cara é demais! O negócio é que não se pode separar design de um contexto social, e isso não se limita a fazer produtos para pessoas de baixa renda apenas, mas a toda relação design x homem x sociedade. Projetos espalhafatosos, com materiais não coerentes com a função dele é mal design e traz maleficios consigo, não? Um exemplo é o notebook de ouro, outro exemplo são os móveis mais populares que numa questão de baixar preços sem perder lucratividade, acabam utilizando materiais e acabamentos vagabundos, diminuindo o desempenho de algo que poderia ser bom. O problema todo é o produto não ser coerente com seu preço e função. Esse é o problema. E em geral, design luxuoso falha nesse quesito preço, pois cobra mais, muito mais do que deveria apenas por saber que o publico a que se destina irá pagar. Isso traz outros problemas consigo, pois o preço acaba sendo indicativo da qualidade do produto (o que nem sempre acontece, vide notebook de ouro... fico pensando a capacidade do cooler para dar conta do calor...), e outras camadas da população acabam adquirindo produtos desse tipo apenas pelo seu aspecto feitichista. Exemplo: a artefato, loja de móveis de luxo, onde uma cabeceria de cama (só a cabeceira! sem o resto dela) custa mais de 10.000 reais. E na etiqueta do produto está escrito que a parcela mínima é de 100.00. Me diga se o público a que se destina precisa de uma parcela dessas? E não me venha dizer que é uma preocupação social para que outras camadas tenham acesso ao produto deles. A preocupação é, sim, que outras comprem, mas apenas para garantir a venda de produtos sem ter que baixar o preço destes, garantindo ainda ganhos muito acima do racional. Resumindo... é ridículo, sabe? São como classicos do design, onde o valor histórico acaba sendo muito grande, impossibilitando que produtos ótimos cheguem a usuários, contradizendo muitas vezes a proposta inical do designer do produto... E, desulpa, Ed, mas essa sua frase é muito perigosa... "Se vc designer não busca produzir pra pessoas que compram luxo, com toda a certeza alguém vai fazer". Se vc num matar sua avó, ela vai morrer mesmo... Se vc num roubar, algum politico vai fazer... Pra que fechar a torneira se ninguém fecha? Sempre haverá gente fazendo coisas erradas e irracionais, e nem por isso tornam-se certas. O luxo é algo desproporcional, despendioso, e muitas vezes desrespeitoso. E a conversa continua legal! Muito bom tópico mesmo!
  • Os outros são os outros mas fazem parte do todo. Raphael, na minha opinião, uso alternativos de materiais para a produção ou acabamento de um produto eu chamo de Re-design. Separei porque muitas vezes a peça fica horrível... uma ré. Não ajuda no segundo propósito. O 1º seria atender a uma determinada função e depois a intenção de servir para um grupo determinado de clientes. A peça continua com a função que foi destinada e só. Concordo com todos os termos citados do bom design. Fonte respeitável.
  • não sei se concordo em dizer que folhear um produto com ouro é fazer design... tenho minhas dúvidas. Os 10 mandamentos do design, segundo Dieter Rams: 1. O BOM DESIGN É INOVADOR. Não se copia formas de produtos existentes. A essência da inovação deve ser facilmente perceptível em todas as funções do produto. 2. O BOM DESIGN FAZ O PRODUTO ÚTIL. O produto é comprado para ser usado. Ele deve servir ao seu propósito, tanto nas funções primárias quanto nas secundárias. A tarefa mais importante do design é otimizar o uso do produto. 3. O BOM DESIGN É ESTÉTICO. A qualidade estética de um produto e a fascinação que ele inspira, é uma parte integral da utilidade do produto. É preciso ter um bom olho, treinado através de anos e anos de experiência para se desenhar a conclusão correta. 4. O BOM DESIGN AJUDA O PRODUTO A SER ENTENDIDO. Ele evidencia as estruturas do produto. Faz com que o produto fale. O produto é auto-explicativo e evita a árdua tarefa de ler um manual de instruções. 5. O BOM DESIGN NÃO ATRAPALHA. Produtos que possuem esta característica são ferramentas e não obras de arte ou de decoração. O seu design deve sempre ser neutro. 6. O BOM DESIGN É HONESTO. Um produto desenhado honestamente não diz que tem características que não existem. O design não influencia ou manipula os compradores e usuários. 7. O BOM DESIGN É DURÁVEL. Nada da moda que possa cair amanhã. Esta é uma das maiores diferenças entre produtos bem desenhados e objetos triviais. Desperdício não deve ser tolerado. 8. O BOM DESIGN É CONSISTENTE ATÉ O ÚLTIMO DETALHE. 9. O BOM DESIGN SE PREOCUPA COM O MEIO-AMBIENTE. O design deve contribuir para o meio-ambiente e usar os materiais de uma forma inteligente. 10. O BOM DESIGN É O MENOS DESIGN POSSÍVEL. De volta à pureza, à simplicidade. texto retirado de: http://www.kaneoya.com.br/wordpress/index.php/2007/10/15/os-10-mandamentos-do-design-por-dieter-rams/
  • Lígia, o luxo é superficial, o design é conteúdo! Obviamente a frase não é minha mas resume bem a minha opinião! Tenho certeza que você sabe de onde ela é! ;) E parabéns, seu texto é muito atual como sempre!
  • Até onde eu sei design serve para melhorar a vida E criar novas necessidades. Com o passar do tempo foram feitos estudos de comportamento que geraram dados sobre diversos tipos de consumidores. O que eu vejo aqui é uma pequena confusão entre a necessidade de ter que atender clientes que buscam um apelo luxuoso de um produto ou de enaltecer o design, mostrando que (redundante citar isso) ele (o design) pode estar em produtos de qualquer tipo. Se é sobre o luxo. Design vende. Se vc designer não busca produzir pra pessoas que compram luxo, com toda a certeza alguém vai fazer. E eu não vejo o problema nenhum do cara querer um Ipod folhado a ouro se ele tem grana pra isso. Pessoalmente eu gostaria de trabalhar em projetos relacionados a um baixo custo, que possa ser adquirido por qualquer pessoa e ainda que possua linhas que o identifiquem como uma peça com um grande diferencial. Design é consumo. Design that's make you buy. Mas os exegeros acontecem, aí eu vejo que é ainda o volume de tecnologia. É muito grande e os designers estão se perdendo um pouco com isso. No livro Design do Dia-a-dia o autor fala que se vc olha pra um produto e não sabe como usar, a culpa é do designer e não adianta dar a desculpa que fez o manual.
  • Oi, Raphael! Concordo com você e também amo a Apple de paixão, mas esse amor não é compartilhado por todo mundo não. Há quem goste de milhões de botõezinhos, de película preta no vidro do carro, de vários controles remotos na sala, de móveis envernizados com detalhes em dourado. As pessoas são diferentes. Design não é só para nós, pessoas conscientes e de "bom gosto", sabe? A Apple também lança produtos a toda hora que me fazem querer consumir de qualquer maneira. Troquei o meu iShuffle branquinho, aquele primeiro, pelo do clips. Ele estava funcionando, não precisava. Mas fazer o que, se sou louca por design? Mesmo o bom design instiga o consumo, não há como fugir...
  • Concordo Lígia, nesse mundo existe gosto pra tudo, e não é errado, pelo contrário! Se todos fossemos iguais o mundo seria muito chato. O que eu quis dizer sobre o design não poder viver em função do mercado, foi no sentido de que o propósito dele não é esse. O mercado visa o lucro. Ele capta a necessidade sim das pessoas, mas sempre pensando no lucro, pois se essa necessidade existir e não houver lucro, não existirá produto. É meio utópico encarar as coisas dessa forma, concordo. Mas vejam só: vou pego como exemplo uma discussão que teve aqui no blog um tempo atrás, sobre manual de usuário dos produtos, ou sua real necessidade no caso. Hoje você compra um novo celular com inúmeros botões no aparelho, cada um fazendo uma função específica. Botões este que de tão pequenos quase não te deixam clicar sem esbarrar em outros do lado. Na caixa do aparelho você logo ve um manual gigante, com muitas folhas. Ai eu pergunto: se este é um produto pensado por designers para as pessoas, por que existe um manual de usuário com tantas folhas? Será que é necessário tudo isso?! Ou será que os designers estão realmente pensando em função das pessoas e suas necessidades? Sinceramente, eu não acredito que um produto tenha que ter um manual de usuário desse tipo. Ora, quando eu compro um produto, eu não desejo ficar lendo um manual gigante para aprender a usa-lo. Não tenho tempo pra isso! Nem se tivesse eu o faria, não é agradável! (pelo menos pra mim) Mas já cansei de ver pessoas elogiando um aparelho pela quantidade de botões ou funções que o mesmo possui, como se a quantidade de botões estivesse diretamente relacionada a qualidade do produto! Quando eu comprei meu primeiro ipod, eu me surpreendi pois não havia nenhum manual dizendo: "acesse suas músicas assim", "selecione ou agrupe suas fotos dessa maneira". Pelo que eu lembro, só existia as informações de como ligar e plugar o ipod no pc/mac. E eu nem preciso dizer aqui quantos botões o ipod possui a primeira vista... rs A interface de usuário do ipod é tão bem pensada, tão bem feita, tão meticulosamente bem projetada que um manual de usuário é superfluo! O ipod ignora que as pessoas gostam de vários botões e dar a elas o suficiente para satisfazer suas necessidades com o mínimo possível. Isso sim é pensar nas pessoas! Isso é design pra mim! Eu amo a Apple! hehehe...
  • Oi, pessoas do design! Estou adorando a discussão. Realmente não tenho a menor condição de discutir o luxo e o supérfluo, afinal, sou mulher e tenho muito mais sapatos do que precisaria. Já expressei em colunas anteriores que função, para o design, não é só "fazer funcionar" no sentido físico, mas, principalmente, no psicológico. Um batom é uma coisa que qualquer pessoa pode viver sem (desde que não seja mulher...eheheh). O simbólico, o fútil, é uma coisa sublime na vida da gente, é como a arte. Existe só para alimentar o espírito, não o corpo. Um tênis de marca não me diz nada, simplesmente porque não sou ligada em tênis. Mas um livro de arte me faz perder a cabeça, e não acho que um objeto seja superior ao outro. Tudo depende do significado que cada pessoa dá àquela coisa que ela segura na mão. E o design, como, bem disse o Raphael, deve existir em função das pessoas. Para mim, um anel de brilhantes é supérfluo, para outra pessoa pode não ser. Sobre os valores, isso é proporcional à conta bancária de cada um. Eu ficaria com vergonha de dizer a alguém que ganha salário mínimo quanto eu gasto em livros; talvez seja a mesma proporção entre eu e uma pessoa que compra um laptop de ouro. Não façamos julgamentos, cada um dá valor ao que acha mais legal e paga o preço que acha que vale (e pode). Eu podia ter qualquer espremedor de limão, mas fico feliz em ter o do Philip Stark (funciona, podem acreditar). Algumas pessoas podem achar bobagem. Gosto é gosto, e isso é que faz a vida interessante. O mundo fica muito chato quando a gente passa a julgar as atitudes dos outros baseando-nos nas nossas crenças e princípios. Tem espaço para o design de coisas simbólicas e aparentemente inúteis e exageradas, sim! Design é para todos, inclusive para os esnobes (que também são pessoas e têm os mesmos direitos de todo mundo). Atire a primeira pedra quem não tem nada de supérfluo em casa...
  • O design gera necessidade? Pode-se dizer que sim, não? Afinal, ele gera a vontade de comprar uma cadeira boa e confortável em detrimento de um cubo (embora esse seja suficiente para sentar...). Desse ponto de vista, realmente o design faz a economia andar. Assim como também e acima de tudo, é função do design facilitar a interação do homem com o meio, do homem com outros homens e do homem consigo mesmo. Daí faz todo sentido do mundo o surgimento de novas tecnologias, da opção sustentável de agregar diversas funçoes num único aparelho de forma que ele desempenhe o que diversos fariam (economia de material), etc... Design realmente nao é pão e água, como bem observou-se acima, mas ainda acho que o problema é o uso dessas qualidades como forma de superposição opressora e consumista. É complicado, sabe? Não é questão simples de gosto, mas de bom senso! O exemplo do laptop foi exagerado, é o extremo, mas vemos muitas coisas por aí que acabam caindo nisso... Enfim. Mas devo dizer que a discução aqui está realmente legal!
  • Et, vive la diference, Raphael! Concordo que esse exemplo extremo (do notebook de ouro) seja tudo, menos design. Quando cito o design como gerador de consumo, quero dizer que nós não precisamos de muito mais do que comida, abrigo e água para sobreviver. As outras 'necessidades' chegaram com o tempo. Um celular com vários recursos, por exemplo, é uma necessidade criada. Até ontem, vivia-se sem comunicação móvel. Depois vieram os 'tijolos' com bateria que durava 1 hora (uau!). Hoje os celulares (ou i-phones) fazem de tudo. Precisamos disso tudo? Não acredito. No entanto eles, os celulares, são resultado do design. Qual a função de um logotipo? Ser o carro-chefe de uma marca. Representar um estilo de vida, num segundo momento. Ser parte da identidade de uma empresa. Para que? Para abarcar um pedaço maior do mercado e... vender mais! É o design a serviço do mercado. O designer cria a forma (e função) e o publicitário (argh!!) envolve esse produto numa roupa sedutora. Gostei do seu ponto de vista e concordo em grande parte com ele.
  • ótimo texto, ótimos comentários! Eu tendo a concordar com o Raphael, bem pragmático... mas é fato que o mercado tende a precisar mesmo de coisas esnobes... mas, até quando? Esse tipo de pergunta me lembra que design tb é filosofia... aliás, de onde saiu tb a Estética. heheh Bonito ou feito é sempre subjetivo? Não, mas quase sempre é... o problema é que as próprias palavras não são bons referenciais para medir a qualidade estética ou a "supérflualidade" dos objetos. Se apenas a Estética se preocupa com a beleza, o supérfluo é tema de áreas bem diversas: Economia e Ecologia, Moral, Política e, de novo, a Estética... dentro de cada campo um objeto tenderia mais para supérfluo que em outros. De uma coisa dá pra ter certeza: mto poucos 'jobs' ou 'briefings' passam a existir sem uma necessidade econômica, ou seja, não são nunca 100% supérfluos.
  • Bom, continuo pensando que luxo é superficial, e design é conteúdo. Sendo assim, penso que um notebook de ouro que possui as mesmas configurações de um notebook normal (ou como se referencia o Rafael Amorim, do povão, o que todo mundo tem), nada mais é do que um produto de status. Ora, sejamos francos: será que o design tem mesmo esse objetivo de gerar produtos com status e sem conteúdo? ou somente para a geração de consumo Morandi? Acredito que não. Se pensarmos dessa forma estaremos submentendo o design a um simples agregador de valor ao produto, onde na realidade o design é o valor! E outra, o design não pode se submeter ao que o mercado pede, pois o mercado só existe em função do lucro. A medida que exercemos o design em função do mercado, estamos gerando um design superficial, que só gera lucro ao mercado. O design deve existir em função das pessoas. O Publicitário pensa em função dos clientes, o designer pensa em função dos usuários. A frase não é minha, mas acho que ilustra bem o meu pensamento. Embora respeite a opinião de todos. abs
  • Penso que um designer pode trafegar por vários nichos sem perder a dignidade profissional. Ele se aplica à Ferrari de 1 milhão de reais (incluindo aí toda a identidade corporativa da marca, que vende sonhos, não carros) e também à pequena empresa que presta serviços (que nem sequer tem um produto palpável para vender). E, quem está sendo mais 'honesto' e digno? Ambos. Cada um com seu público. A própria questão do supérfluo, como bem disse a Ligia lá no começo do texto, é extremamente subjetiva. O que é supérfluo para uns é necessidade para outros e vice-versa. A nós, designers, cabe abrir a cabeça sem perder o foco naquilo que é legítimo. Devemos ser éticos sem ser reacionários. Temos de entender a necessidade dos nossos clientes e dos clientes desses nossos clientes. De outra forma, sentaríamos nas mesmas cadeiras, dirigiríamos os mesmos carros e vestiríamos as mesmas roupas. Aliás, nem existiríamos como os profissionais, pois não haveria o porquê de fazermos o que fazemos. Quando defendo que um dos papéis do design é o da geração de consumo (fazer girar a roda da economia), costumo ser criticado pelos colegas mais ortodoxos. Apesar das críticas, ainda não evoluí o suficiente para pensar de outro jeito...
  • Primeira vez que venho nesse blog, e me deparo com um texto excelente sobre essa separação de design e luxo, "nobre" e "esnobe". Isso me fez pensar em algumas coisas. Tirando como base o que o amigo aí de cima citou sobre o laptop com carcaça de ouro, eu agora vejo (se é correto ou nao eu nao sei dizer, mas é o q me veio em mente) que o luxo agregado ao design vem tendo um papel diferenciador de um produto x, que já atingiu uma parcela da população consideravel. Explico: um laptop hj em dia eh relativamente facil de se adquirir, então, será q o luxo (carcaça de ouro) vem simplesmente para agregar um diferencial para um público q simplesmente deixa de ter interesse num laptop, pelo fato dele ser mais acessivel a camadas da sociedade q antes nao o tinha? Algo como comprar um laptop é sinonimo (por mais fútil q pareça) status? Já vi varias pessoas se interessarem mt por um determinado produto, e perderem esse interesse quando o mesmo se torna bastante comum de se encontrar com qq pessoa. Eu me apeguei mt ao exemplo do laptop, mas creio q isso exista tb em outros exemplos. Nesse caso, a minha opinião é q eu o luxo simplesmente é um agregador de valor não-prático, que nao muda a funcionalidade do design, pelo simples prazer de estabelecer um status maior para quem o compra. Parabéns Lígia pelo texto! Vou acompanhar mais o blog a partir de agora. Abraços!
    • Rafha, isso explica o preço de um porsche, uma ferrari...uma mont blanc (q assina o cheque tanto como uma bic), para poucos mortais, né? esse é o grande "barato" deles...estufarem o peito para dizer (mesmo baixinho): viu seus pobres, eu posso, vcs não...bixos escrotos...rsrsr. Abraço
  • O blog está em falta de textos bons, mas sempre vem a Lígia pra salvar a pátria. Texto muito legal. Só que tenho que discordar de certo trecho... "Não ouso ir tão longe inclusive porque não tenho moral para tanto e não quero desprezar a importância econômica (e até social) da indústria do luxo. Um mundo reduzido ao essencial não tem graça e o conceito de supérfluo é o mais elástico dentre os existentes justamente pelas diversidades culturais e existenciais." A indústria do luxo é algo desproporcional. Simples assim. Se elas apenas se restringissem a colocar o preço no produto de acordo com seu material, sua qualidade, etc, tudo bem. Mas todos sabemos que há aquele "zerinho" a mais no final da cifra, e o colocam porque sabem que o público a que se destina é em geral irresponsável e impulsivo, e adquirem o produto superfaturado. Fora questões sociais que esse luxo causam, como pessoas que moram em favelas investirem suas fichas na felicidade atravéz do material porcausa do status que artigos de luxo geram, torrando grana em geral em eletronicos, como celulares (cansei de ver na rua na época do auge do v3 gente que nem uma camisa descente tinha, mas lá estava ele com seu celularzinho da moda, se, claro, superfaturado), tvs de plasma (já vi isso ao vivo... e a casa completa era 1/3 do escritorio que trabalho...), playstation 3, e o caramba a quatro. Todo esse feitichismo sobre o material de luxo é descabido e ferra com a vida mesmo daqueles que num podem pagar. E a importância econ6omica desses objetos acabam não sendo assim tão exorbitante. Exemplo são os móveis dos polemicos campana... a cadeira vermelha (8.000) só vendeu algumas centenas de unidades desde seu primeiro projeto. Sendo que uma calculadora escolar movimeta muito mais dinheiro e esforços que todas elas somadas. E falta comentar as estravagâncias que se tem feito por a;i para esse seleto público esnobe (usando o nome no sentido original): outro dia ouvi no rádio falando de um notebook para milionários que sua "carcaça" era feita de ouro... era agumas centenas de milhares de dólares... e sua configuração era tão boa quanto o computador de qualquer escritório por aí... Agora, me diga se num tem alguma coisa errada nisso tudo... portanto... tenho que concordar com o brunão e ainda acrescentar...“o luxo é, pois, o uso errado de materiais dispendiosos sem melhoria das funções(...)", e acrescentar valores sociais/emocionais a eles que não lhe são equivalentes. “É, portanto, uma estupidez.” abs
  • Se conhecem o o processo de criacao de um novo produto, sabem q em algum momento o publico alvo deve ser selecionado e existe um publico q se dispoe a pagar muito para ter produtos q poucos possam ter. deve existir design para todos, com suas caracteristicas, seu significado e seu preco. geralmente produtos mais caros sao produzidos em uma escala menor e isso custa mto para a empresa, mas essa e a estrategia. por exemplo: e custo de producao da primeira batedeira 'e de R$30.000. mas as outras custam R$ 15. uma empresa pode escolher vender um numero de pecas mais e cobrar menos ou vender um numero menor e cobrar mais. a gente algo assim cada designer projeta oq quer, uns tem habilidade para produzir para massa e outros para produzir pecas exclusivas, para poucos. se design 'e para todos, tem q ter o design de luxo tbm.