ArghDesign #1: Design para Fracassados!

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[NOTA: nesta nova coluna, abordarei os resultados das minhas pesquisas através do Projeto Empreendedorargh! e as observações que tenho feito nesses 7 anos dentro desse nosso mundinho designer. Embora quase tudo tenha raiz em algum lugar, é bom frisar que aqui vai nada mais do que minha opinião – parcial, preconceituosa, imoral e ordinária. Comentem!]

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Failure is one of those things that “serious people dread”. Invariably, the persons most likely to be crippled by this fear are those people who have convinced themselves that they are so bitchen they shouldn’t even be placed in a situation where they might fail. Failure is nothing to get upset about. It’s a fairly normal condition; an inevitability in 99% of all human undertakings. Success is rare – that is why people get so cranked up about it.

– Frank Zappa

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Eu tenho um interesse crescente em escrever um livro sobre fracassos. Prateleiras e mais prateleiras de nossas adoráveis bibliotecas e livrarias do dia-a-dia estão entupidas de leituras de casos de sucesso, o que se tornou algo muito pior que uma praga – pelo menos no que tange aos livros de negócios. O mesmo pode não ocorrer com design, mas sejamos sinceros, achar um bom livro de design sem figurinhas já é difícil em primeiro lugar. De qualquer forma, empresas de design, assim como empresas de qualquer área, nascem e morrem a todo momento. Algumas mais afortunadas crescem e cravam seu nome na mídia (ou pelo menos na mídia que interessa aos clientes específicos daquela empresa). É relativamente fácil encontrar essas, assim como conhecer suas histórias. Mas e as que morrem? Para onde vão?

Toda empresa começa de um núcleo similar: um grupo de duas ou mais pessoas com um interesse em comum: ganhar dinheiro. Podem haver um zilhão de outros motivos (“odeio meu chefe”, “encontrei um nicho”, “quero mudar o mundo”), mas se alguém abre uma empresa sem ter a intenção do lucro já está cometendo um erro em primeiro lugar. Nesse caso, é infinitamente melhor abrir uma ONG. Você dorme em paz à noite e ainda ganha ajuda do governo para isso. Considerando que não seja esse o caso, uma vez constituída a empresa, ela logo passa por uma fase um tanto complicada: você tem finanças a cuidar, mas não tem expertise nem muito menos cacife para contratar um bom profissional da área. Você tem boa vontade, mas não tem clientes (e, as vezes, nem sequer portifólio). Você as vezes não tem nem sequer uma boa sala comercial, tendo que aguentar vizinhos barulhentos, inevitáveis complicações climáticas e uma certa claustrofobia. E isso que nem chegaram as primeiras contas brabas para pagar. E é nesse momento, quando os sócios estão com os nervos à flor da pele, que a empresa passa pela sua primeira grande crise existencial: aquela em que um olha para a cara do outro e começa a pensar seriamente em porque diabos aquele cara, que sempre foi tão companheiro em botecos pela vida, trabalha com tanto afinco quanto um senador em mandato vitalício no congresso nacional. Ou ainda: “fazer freelas/ ter um chefe era mesmo tão ruim assim?”. Mal a empresa começou e ela já está perigosamente perto do fim.

Relacionamento é sempre um item delicado. Talvez seja por isso que há muitos milênios sábios monges das altas montanhas do noroeste de algum lugar obscuro escreveram em suas tábuas de sabedoria: “Amigos, amigos, negócios à parte”. É um clichê dos nossos dias. Mas um clichê que sempre fez (e ainda faz) todo o sentido. Enquanto estamos na universidade, é comum nós criarmos grupos de trabalho conforme nossos grupos sociais – é muito mais divertido fazer um trabalho com aquele cara que sabe fabricar cerveja em casa que com o fã do Hans Donner que usa óculos esquisito. Mas uma vez que estejamos agindo em um nível profissional, as potencialidades passam a ser muito mais importantes que eventuais desavenças de gostos. É claro que um bom relacionamento entre os sócios é fundamental para a empresa que está nascendo, mas faz mesmo tanta diferença o fato do cidadão ser fã do Calypso?

Conheço um caso muito bom de fracasso que veio de algo bem similar. E é bom deixar claro: só conheço o caso à fundo justamente por ele tratar de grandes amigos meus. Empresários falidos não tendem a ser muito gentis em relatar as desavenças internas que eventualmente levaram à ruína suas empresas. O caso é o seguinte: dois amigos de faculdade, pouco depois de formados, resolvem montar empresa de design. Para montar seu portifólio, usam seus trabalhos como freelancers e trabalhos acadêmicos. Logo atraem alguns clientes e assim vão crescendo – ou assim parece. Meses depois resolvem dissolver a sociedade. O que aconteceu? Enquanto um dos sócios era mais pró-ativo e gerencial, o outro era puramente operacional. Em outras palavras, um ótimo profissional, mas que nada fazia sem uma ordem superior. Muito bom em várias empresas – mas não em uma recém-fundada, com apenas duas pessoas trabalhando. Obviamente, brigas começaram a acontecer, e, para não perderem a amizade, encerraram a sociedade.

Fazendo um contraponto (porquê contrapontos sempre são legais), a esmagadora maioria das empresas de design que eu pesquisei até hoje surgiu de forma muito similar à citada acima. A diferença está no que veio depois – e como os sócios-empreendedores aprenderam a lidar com as adversidades. Afinal, levar tombos é comum em qualquer projeto na vida. Levar tombos, se levantar, sacudir a poeira e seguir em frente é o que diferencia bons empreendedores. Pelo menos, é isso que as centenas de livros de casos de sucessos mostram. E de novo, é por isso que amo estudar os fracassos. Feliz ou infelizmente, sabemos que a vida real não vem em livros de auto-ajuda; A vida real é suja, deselegante, ordinária e cruel. E deliciosamente divertida.

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Luiz Fernando Pizzani é coordenador geral do Projeto Empreendedorargh!, uma iniciativa de cursos de curta duração, palestras e pesquisas itinerante sobre mercado de trabalho e empreendedorismo em design no Brasil. É bacharel em desenho industrial – projeto de produto pela PUCPR, pós-graduando em CBA de Gestão de Negócios pela Estação-Ibmec Business School e presta serviços de consultoria para empresas de design recém-formadas ou em fase de formação. É viciado em história política brasileira, Monty Python, Frank Zappa, cervejas artesanais e voadoras, não necessariamente nesta ordem.

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17 comentários

  • Curti o artigo, parabéns. Há anos (tantos que quase me surpreendo de ninguém ter usado minha brilhante idéia ainda), tenho em mente escrever um livro de "auto-ajuda contra os livros de auto-ajuda". Pra mim, faz tanto sentido quanto o seu livro de fracassos....mas ninguém me entende.haha. Beijos.
  • Gostei do jeito que tu escreve, é divertido. E é bem verdade o que tu escreveu, o negócio é saber diferenciar quem serve pra trabalhar e quem serve pra conversar, nem que para isso se leve alguns tombos, o que não pode eh desanimar no primeiro, ou segundo...., o bom mesmo eh quando se consegue juntar os dois neh. hehe bju
  • Leiam também "Ansiedade de Informação", de Richard Wurman. Quem já leu, leia de novo... Em uma parte ele aborda como o fracasso nos ensina... e o fracasso dos outros nos ensina mais ainda. Ele propõe a criação do "Museu do Fracasso", onde só inventos ruins e mal-logrados é que seriam expostos. Daí basta ver onde foi cometido o erro e aprende-se a corrígi-lo, criando-se algo novo. Agora com coisas que deram certo, aprende-se mais a copiar, do que reinventar.
  • Nooossa, “estilo e conteúdo” mesmo! Parecia que eu estava ouvindo o Luiz tagarelando rapidamente do meu lado! PARABÉNS! Eu sou da opinião que formar sociedade é sempre um pepino. Pra que ter um sócio? Se eu for escolher um sócio de outra área eu não vou saber avaliar se ele é bom mesmo no que faz... O sócio sempre vai ter um vínculo pessoal, então as chances de brigar e perder o amigo/marido/namorado é GIGANTE... Para quê? Ter perdido uma amiga já foi uma boa lição para eu não me arriscar de novo. Que tal começar um negócio sozinho? É importante saber fazer tudo sozinho, ser independente. No começo é difícil, mas aprende com o tempo! À medida que vai aumentando o volume de trabalho, você vai convidando pessoas para executar tarefas para a empresa, e assim, vai pagando só pelas horas trabalhadas. Depois, contrata um estagiário... Mais tarde, um profissional... Sempre crescendo devagarzinho. Luiz, vou ficar sempre atenta aos seus artigos!!!! Abração
  • " é muito mais divertido fazer um trabalho com aquele cara que sabe fabricar cerveja em casa que com o fã do Hans Donner que usa óculos esquisito" Cara, exatamente o que acontece! Parabéns pelo artigo!
  • Oi Luiz! Legal, dandos os exemplos de falhas você pode dar conselhos do tipo "não faça isso". Eu faço parte da estatística de empresas que fecharam suas portas depois de 1 ano... é triste ter uma empresa inativa. Tive problemas com minha sócia e a empresa tinha um cliente muito bom que era o sustento para fazê-la caminhar... Escolher sócio é realmente muito complicado. Precisa ter as tarefas bem definidas e interesses em comum. Quase que a missão e visão do escritório de design plotado de todo tamanho para os sócios se lembrarem a todo momento por que estão ali. Hummm... missão e visão... você conhece algum escritório que tenha? Isso funciona quase que como um contrato com seu sócio ;) Parabéns! Nos dê mais exemplos de empresas fracassadas ;)
  • acredito q o primeiro grande trabalho tem q surgir ainda na academia, o melhor sócio raramente vai ser o seu melhor amigo, e pensar que vamos apenas fazer o trabalho que gostamos eh um erro imperdoável... espero não ter esses problemas! ps: ótimo post, parabéns!
  • Muito bom o texto, não concordo muito com os casos de sucessos, na verdade são produtos projetos gráficos para satisfazer o ego e super ergo de designers que gostariam de ser famosos, mas que nunca serão (os que gostaria de ser os irmãos (argh!!) Capana. Se tivéssemos verdadeiros casos de sucesso,também seria interessante. Realmente os casos de insucessos seriam uma boa pedida, pois agente aprende mais com os erros do que com os sucessos.Os erros nos faz pensar, refletir buscar corrigir os erros.
  • Tive uma experiência muito parecida com um sócio, quando ele conseguiu me convencer a fazer uma sociedade para abrirmos uma agência de publicidade (detalhe... ele era publicitário). É claro que o negócio terminou com 4 meses de sobrevida, depois deste episódio traumático, fui ser chefe de uma empresa do ramo de biscoitos, foi frustrante... existem muito mais coisas no mundo do que wafers, biscoitos recheados e cream-crackers, caí fora. Hoje a mais de 1 ano montei um escritório, que chamo de escritório de criação, meu público são agências de publicidade e empresas. Finalmente sem muitas ideologias e com bastante trabalho, pago muito bem minhas contas e atraio clientes pagantes, do tipo que deixa você trabalhar sem querer ser seu diretor de arte amador. Procuro fazer um bom trabalho com o design, tento sempre orientar os clientes para não cometerem equívocos por causa de gosto pessoal e ao invés de sócios ou até mesmo um funcionário, por enquanto ando me preocupando em comprar equipamentos rápidos e funcionais para me ajudarem a me utilizar de mais mão-de-obra humana, quando realmente for necessário. Sucesso eu talvez acredite que não tenha tido 100%, mas com certeza depois de alguns fracassos eu aprendi uma coisa básica "amigos, amigos e negócios a parte", muito trabalho, profissinalismo, muito cuidado com egocentrismo e bastante pé no chão. Adorei o artigo tudo haver.
  • Pizzani, Muito bom !!! Gostei do texto. E SIM !!! Aprende-se com os erros... Só que é muito melhor aprender com os erros dos outros... Como vovó já dizia... Adorei sua apresentação ao final do texto. Duas coisas: 1º "com o fã do Hans Donner que usa óculos exquisito" ... eSquisito ; 2º pós-graduando em CBA... Que porra é CBA ??? PAA.
  • Muito bem observado, aprendemos muito mais com um fracasso do que com uma vitória. Amigos montando uma empresa sempre é complicado, pois o que geralmente querem fazer é uma empresa de "Designers", mas, e a administração? O Marketing? E o um dos mais importantes, a contabilidade? Ótimos Designers "talvez" não sejam bons adminitradores e etc. Vale a pena abrir uma empresa apenas com "Designers?"
  • Eu sempre digo que não aprendemos apenas com os grandes mestres. Também aprendemos como NÃO queremos que seja nossa empresa ao lidarmos com aquele chefe que NÃO sabe resolver os problemas através da maneira mais correta... ou quando negociamos com um cliente que NÃO vai pagar ao final pelo seu serviço.Aprendemos muito de como ser um bom profissional e tocar de forma correta uma empresa com situações que nos mostram o contrário. Ver o mundo sobre o prisma da perfeição com que os cases de sucesso se apresentam é frustração certa ao se deparar com o primeiro obstáculos. Também devemos conhecer os fracassos e estar preparado para lidar com eles e dar a volta por cima caso um dia ocorram.