Diploma pra quê?

No final do ano passado, estava ministrando aulas em um MBA quando um funcionário da instituição, bem desanimado, comentou que um primo dele tinha até doutorado e estava ganhando uma miséria fazendo bicos. Aguardava uma bolsa para estudar mais um pouco. Injustiça, né?

Mas será mesmo?

Sinceramente, acho que não. Pela descrição do perfil, parece que o rapaz é estudante profissional. Não há nada de mal nisso, mas que ninguém espere ganhar fortunas dependendo apenas de bolsas de estudo.

O problema é que algumas pessoas costumam levar ao pé da letra aquelas manchetes escandalosas publicadas nas capas de revistas de negócios dizendo que um curso de MBA pode aumentar seu salário em muitos porcento. Vejo gente fazendo as contas do investimento, computando a diferença entre a mensalidade e o incremento no contracheque que espera obter. O problema é que isso não acontece automaticamente, como muitas reportagens querem fazer crer; então, o que se vê por aí é uma legião de pós-graduados subempregados e reclamando da vida.

A questão é que, diferente do que possa parecer, o mercado não faz concursos nem paga mais para quem tem mais diplomas. O mercado remunera melhor quem consegue gerar mais valor, tendo ou não uma pilha de certificados. E é pior contratar uma pessoa sem noção, mas com diploma, pois essa pessoa não vai querer tirar xerox ou fazer serviços “menores”.

O diploma nada mais é do que um comprovante que você teve acesso a um conjunto específico de informações que lhe foram apresentadas de maneira estruturada e com orientação de outros profissionais, supostamente experientes e conhecedores da matéria. Você ganha esse pedaço de papel quando consegue provar para a instituição que o emitiu que conseguiu assimilar essas informações de maneira satisfatória. E só. Lá não tem nada dizendo que agora você é melhor que os outros, que ficou mais inteligente ou que merece um aumento. Pode procurar, garanto que não tem.

Então, como é que o diploma pode ter a ver com aumento de salário? As revistas estariam mentindo?

Não estão. É que, teoricamente, se você tem vários diplomas, teve acesso a vários conjuntos de informações específicas. Isso aumenta muito as suas chances de recombiná-las e criar algo que, de fato, tenha valor para o mercado. Que faça diferença na vida das pessoas. Que seja desejável a ponto de alguém poder pagar mais por isso. Quanto mais cursos, mais combustível e mais matéria prima para converter em excelência. Quem sabe aproveitar isso, ganha mais, claro.

Se, ao contrário, o sujeito pega o papel, emoldura ou então guarda na gaveta e esquece as tais informações, sem fazer nada de útil com isso, então, sinto informar, mas valeria mais a pena ter ficado em casa vendo novela. Seria mais barato e menos frustrante. Há alunos que estão claramente perdendo o seu tempo: pagando as prestações de um diploma que não servirá absolutamente para nada, uma vez que não estão interessados em gerar valor, mas em aumentar o salário.

Vejo um montão de gente por aí que apenas coleciona certificados; não aplica o que aprendeu (se é que aprendeu alguma coisa), não se interessa em fazer coisas novas e interessantes, não transforma o conhecimento em algo útil, e, pior, ainda sai por aí cheio de razão reclamando direitos.

Diploma, sem um profissional que o converta em valor que faça uso do que ele representa, é só um pedaço de papel. Igual àquele que embrulhava o pão antigamente, só que muito menos útil.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

14 respostas para “Diploma pra quê?”

  1. Muito interessante a colação sobre a certificação de que validamos certo conjunto de informações.

    Temos que lembrar que Diplomas devem ser buscados, tanto como iniciativa pessoal quanto como iniciativa de mercado, mas que a experiência e a qualidade de se fazer com ou sem certificados garante muito mais valor agregado e promoções.

    Temos mestres e donos de grandes empresas e agências que sequer terminaram uma faculdade, basta procurar na internet referências e irão brotar grandes nomes, isso se você buscar apenas no Brasil.

    A busca de conhecimento e valorização não deve ser um martírio e sim consequência da sua própria capacidade.

    Mais importante ainda a validação de todos esses valores somados, não se dá individualmente e apenas pendurando certificados e sim, principalmente hoje, transmitindo e co-criando com outras pessoas e grupos esses valores. Só assim o real esforço e capacidade da compreensão do conjunto de informações adquiridos poderá ser aplicado e por que não dizer, consagrada.

    O mundo e o mercado hoje não se movem de “gurus” e sim de grupos de informações compartilhadas por pessoas tão capacitadas quando lhes é permitido.

    E para quem acha que com apenas o diploma resolve sua situação merecedora de prêmiações. Tente aplicar e compartilhar um pouco em grupos colaborativos de trablaho ao redor do mundo, onde recém formados e CEO´s podem se juntar para desenvolver mais e mais suas capacidade de juntar conjuntos de informações e gerar resultados.

    Segue uma sugestão para quem também interessar: http://www.ideaconnection.com/

  2. eeeeeeta menina arretada!
    Saudades de ler seus maravilhosos textos Lígia!
    É isso ai mesmo. Eu sou um cara que tinha tudo pra ser um “estudante profissional”. Ainda bem que faltou grana e ai apredi a trabalhar! rs

    bjao querida
    Daniel

  3. Muito bom bem esclarecedor, porem muitas empresas ainda seguem as tendências antigas.
    A norma ISO é um meio de fazer com que empresas tenham cada vez mais funcionários “qualificados” graduados.
    Porem Graduação, não é referência para potencial e conhecimento.
    Hoje as empresas devem valorizar os funcionários que, querem crescer com ela, e não apenas estar de passagem.
    Se o funcionário agrega muitos valores deve ser valorizado sim, se agrega muitos conhecimentos tambem.
    Porem poucas empresas reconhecem bons funcionários pelo seu nivel de conhecimento e sim apenas pelo seu canudo.
    Muitas vezes Quem varre sua sala pode ter várias idéias de como melhorar a empresa, ou não! mas não custa pedir, vai que dali não sai um grande analista, ou marketeiro.

  4. Muito bom o artigo. Ilustra a triste realidade em que o profissional brasileiro preucupa-se mais com o salário que recebe, do que com a a qualidade do que produz. Resultado? Profissionais cada vez mais medíocres.

  5. Parabéns Lígia!
    Excelente artigo…
    Infelizmente ainda existem muitas empresas que procuram profissionais pela quantidade de diplomas e não pelo valor agregado que ele pode gerar.
    Mas acredito que, com geradores de opiniões como você, podemos moldar uma nova sociedade, voltada para dar foco ao trabalho gerado por profissionais competentes, que não se escondem atrás de pedaços de papéis.
    Mais uma vez, parabéns pelo magnífico post.

  6. Eu acho válido uma pós quando se está em uma empresa e se senti necessidade…..

    E acredito que mestrado, doutorado é para quem quer seguir vida acadêmica….
    Poucas pessoas que conheço sentiu na necessidade deles, sendo profissional da área….

  7. Ótimo texto… isso me lembra também a boa e velha briga dos formados com os profissionais não formados (que estiveram em uma faculdade ou não). Pessoas que muitas vezes são “condenadas” por outros designers por não ter o tal diploma.

    A grande resposta para a pergunta é justamente essa; Não importa sua formação, importa o seu conhecimento e o valor que você agrega ao trabalho e a agência/empresa que está.

    Parabéns Lígia, estava com saudade de ver seus artigos por aqui.

  8. O diploma é uma comprovação que você teve acesso a conhecimentos especificos e foi avaliado como tal, a comparação de profissionais formados e proficionais não formados vai muito alem do ambito de bons profissionais ou design vernacular, temos certeza que uma formação profissinal direciona o profissional para material teorico e nada mais, que de fato é o ponto crucial para um bom designer, nao simplesmente habilidades no photoshop ou corel.

    Muitos crimes no mundo da propaganda vem de pessoas não formadas, ou que fazem um curso profissionalizante e se dizem designers.

    Alan B. Mortom
    Produção publicitária – UFMG
    Design Grafico – UFPA
    Mestrado Cinema – UFPA

  9. o q o amigo alan mortom se esquece d observar é q muitos estudam por conta própria, motivados pela paixão e pela sede de aprofundar seus conhecimentos, o q, é preciso admitir, em geral não se vê nas salas de aula de universidades…

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