Não trate estudantes de design como crianças

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O ser humano evolui, passando pela infância, adolescência e fase adulta. No entanto, muitas faculdades de design continuam tratando os estudantes adultos, de design, como se ainda fossem crianças, usando as mesmas técnicas didáticas que se usavam no ensino fundamental e no ensino médio. Alguns professores chegam a se orgulhar do uso de técnicas “pedagógicas”. Isso só revela sua ignorância no assunto, pois a palavra pedagogia se refere ao ensino de crianças (pedagogia vem de paidós = criança).

Nesse artigo vou abordar o tema do ensino do design, sob o ponto de vista do ensino de adultos. Para isso, irei me basear no artigo escrito pelo professor e médico Roberto Cavalcanti, fazendo alguns comentários e aplicando as informações no dia-a-dia das faculdades de design.

As características do estudante adulto de design

Segundo Malcolm Knowles*, ao contrário das crianças, o estudante de design adulto:

  • É independente (não gosta de ficar dependendo dos outros).
  • Tem experiência de vida (não é apenas um cérebro vazio esperando para ser preenchido com regrinhas de design).
  • Interessa-se em desenvolver habilidades para usar no design.
  • Quer aprender algo que possa aplicar imediatamente, no dia-a-dia de um designer.
  • Quer aprender para resolver problemas reais de design e não simplesmente “aprender por aprender”, ou porque papai mandou.
  • Tem motivações internas (auto-realização, vencer desafios, por ex.) e menos motivação externa (estudar para ganhar nota).

Sob esse ponto de vista, podem-se apontar as principais diferenças entre pedagogia (tratar estudantes de design como crianças) e andragogia (tratar como adultos), conforme a tabela a seguir:

Características da Aprendizagem Pedagogia Andragogia
Relação Professor/Aluno de Design O professor de design é o centro das ações, decide o que ensinar, como ensinar e avalia a aprendizagem A aprendizagem adquire uma característica mais centrada no aluno de design, na independência e na auto-gestão da aprendizagem. O estudante quer conduzir os rumos do seu próprio estudo.
Razões da Aprendizagem O aluno de design deve aprender o que a sociedade espera que saibam (seguindo um curriculo padronizado) Pessoas aprendem o que realmente precisam saber. Neste caso, os estudantes de design não gostam de ficar aprendendo coisas inúteis, que não sabem onde vão usar ou que não tem relação nenhuma com o design em si.
Experiência do Aluno de Design O ensino é didático, padronizado e a experiência do aluno tem pouco valor. Os alunos de design aprendem as mesmas coisas e saem todos iguais no final da faculdade. A experiência é rica fonte de aprendizagem, através da discussão e da solução de problemas em grupo. O aluno pode escolher as matérias que quer estudar, dando ênfase ao que mais lhe interessa (unindo design e música, design e mangá, design e a Bíblia etc).
Orientação da Aprendizagem Aprendizagem por assunto ou matéria. Aprendizagem baseada em problemas, exigindo ampla gama de conhecimentos para se chegar a solução. Ao invés de pedir um “trabalho sobre teoria da cor”, o professor pede que os alunos resolvam um problema da vida real, usando o conhecimento sobre cores (Qual a relação entre a cor na sinalização de um carro e a temperatura dessa uma superfície? Como a tipografia afeta a leitura de uma placa de trânsito?)

Como usar os princípios da andragogia para melhorar o ensino do design?

A seguir, são apontadas algumas sugestões que podem melhorar o ensino dos estudantes das faculdades de design, no Brasil:

Tirando proveito da Experiência Acumulada pelos Alunos. Não trate os alunos de design como se a falta de conhecimento em design significasse falta de conhecimento em tudo. Ele pode saber pouco de design, mas pode saber muito sobre cultura geral, história, quadrinhos, internet, tecnologia, religião, política. Use esse conhecimento para ajudar os alunos a criar pontes com o que já sabem e deixá-los motivados. Uma forma de fazer isso é fazendo uma pesquisa no começo do ano e perguntando ao aluno quais são os assuntos que lhe interessam, o que eles conhecem sobre outras áreas, e planeje sua aula levando isso em conta.

Propondo Problemas, Novos Conhecimentos e Situações sincronizadas com a Vida Real. Procure aplicar o design no cotidiano dos alunos, trazendo problemas reais, briefings verdadeiros, levando os alunos para a rua e mostrando como o design pode resolver problemas que eles nunca imaginaram. Por exemplo, colocar o valor da moeda dos dois lados evita que na hora de receber o troco seja preciso desvirar a moeda para saber o valor dela. Multiplique isso por cada pessoa, em cada fila, em cada caixa, no país inteiro, e veja o tempo que seria poupado (aprendi isso com o prof. Sawada). Ou ainda, a cor pode resolver um problema de contraste que impede que uma placa ser lida à distância ou uma mudança de material pode eliminar um reflexo que dificulte a visualização.

Justificando a necessidade e utilidade de cada conhecimento. Não fique enchendo linguiça ou dando conteúdo só porque “todo mundo ensina isso” ou porque “eu aprendi isso na faculdade, mesmo sem saber pra que serve, logo tenho que repetir esse conteúdo também”. Se você não sabe porque um assunto é ensinado, procure descobrir, ou então pule essa parte, pois se nem você entende para que serve aquele conceito de design, não vai haver milagre que faça seus alunos adivinharem isso. Aprenda primeiro, entenda o que você vai ensinar e daí mostre qual a utilidade desse conhecimento no dia-a-dia do designer.

Tirando proveito da Experiência Acumulada pelos Alunos. Faça os alunos de design colocarem para fora suas experiências e trocarem informações entre si, por meio de atividades práticas como discussões de grupo, exercícios de simulação, aprendizagem baseada em problemas e discussões de casos. Como o design é uma atividade multidisciplinar, ele é amplamente beneficiado de conhecimentos vindo dos alunos e de outras áreas do conhecimento. Se a aula não for planejada levando isso em conta, os alunos não terão como contribuir com o que já sabem, empobrecendo o ensino do design.

Estimulando e utilizando a Motivação Interna para o Aprendizado. Ao invés de motivar o aluno de design dizendo que se ele fizer o trabalho vai tirar uma nota mais alta, ou se não fizer, vai tirar uma nota mais baixa explore motivações mais fortes como ficar satisfeito pelo trabalho realizado, melhorar a qualidade dos projetos de design, aumentar suas chances de obter um bom emprego, conseguir clientes melhores, salários mais altos, ou mesmo maior auto-estima.

O professor Cavalcanti ainda dá outras dicas sobre como ensinar alunos adultos (adaptadas aqui para o ensino do design):

  • Estudantes de design não gostam de passar vergonha na frente de outras pessoas. Assim sendo, quando for pedir a opinião de um aluno, faça isso de modo a deixar claro que ele não será humilhado. Quando for fazer uma pergunta, não pergunte “quem sabe a resposta?”, mas sim “quem pode iniciar uma resposta?”, pois assim é menos intimidador.
  • A sala de aula de algumas faculdades de design continua com o mesmo aspecto de salas do primeiro grau, ou seja, em fileiras. O ensino de adultos depende da discussão em pequenos grupos, e isso sugere uma forma diferente para dispor as cadeiras e mesas, ou seja, em pequenos grupos, ou em círculos.
  • O Professor de design nunca deverá dizer que a resposta de um adulto está errada. Cada resposta sempre terá alguma ponta de verdade que deve ser trabalhada. O professor deverá se desculpar pela pergunta pouco clara e refazê-la de modo a aproveitar a parte correta da resposta anterior. Fará então novas perguntas a outros estudantes, de modo a correlacionar as respostas até obter a informação completa.
  • Adultos de design podem se concentrar numa explanação teórica durante 07 minutos. Depois disso, a atenção se dispersa. Este período deverá ser usados pelo Professor para estabelecer os objetivos e a importância do assunto a ser discutido, enfatizar o valor deste conhecimento e dizer o quanto sente-se motivado a discutí-lo. Vencidos os 07 minutos, é tempo de iniciar uma discussão ou outra atividade, de modo a diversificar o método e conseguir de volta a atenção. Estas alternâncias podem tomar até 30% do tempo de uma aula teórica de design, porém permitem quadruplicar o volume de informações assimiladas pelos estudantes.

O professor Cavalcanti afirma ainda que

“nos Cursos Universitários, geralmente recebemos adolescentes como calouros e liberamos adultos como bacharelandos. Estamos portanto trabalhando no terreno limítrofe entre a pedagogia e andragogia. Não podemos abandonar os métodos clássicos, de curriculos parcialmente estabelecidos e professores que orientem e guiem seus alunos, nem podemos, por outro lado, tolher o amadurecimento de nossos estudantes através da imposição de um curriculo rígido, que não valorize suas iniciativas, suas individualidades, seus ritmos particulares de aprendizado. Precisamos encontrar um meio termo, onde as características positivas da Pedagogia sejam preservadas e as inovações eficientes da Andragogia sejam introduzidas para melhorar o resultado do Processo Educacional.”

Se os professores de design, no Brasil, continuarem a achar que o modo de ensinar é o mesmo método pedagógico que foi usado com eles, enquanto eram alunos do primeiro e segundo grau, teremos muitos designers aprendendo pouco, sem motivação e sem fazer pontes com o que já conhecem. Pior ainda, vão se tornar profissionais medíocres, ganhando salários medíocres, sem conquistar o respeito que o design merece no Brasil. E com isso, todo mundo sai perdendo. Mas, se mais professores entenderem que o ensino de adultos é diferente, e levarem isso em conta na hora de planejar suas aulas, teremos a chance de evoluir o ensino do design no Brasil, com efeitos diretos na qualidade projetual, tanto a curto, médio e longo prazo. E todo mundo vai sair ganhando.

Cavalcanti, R. ANDRAGOGIA: A APRENDIZAGEM NOS ADULTOS. Revista de Clínica Cirúrgica da Paraíba, Nº 6, Ano 4

* Para quem se interessar pelo tema da Andragogia, poderá ler o livro “The Adult Learner – A Neglected Species” (1973), de Malcolm Knowles. O termo “andragogia” refere-se ao ensino de adultos, levando em conta suas diferenças em relação às crianças.

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19 comentários

  • Adorei o texto, simplesmente porque vivo isso na faculdade, comecei o curso muito animado e tenho q assumir que depois de 4 semestre tenho me desanimado muito, tive aulas que estava ansioso e quando tive me decepcionei, um exemplo disso foi Design de Informação, as aulas ministradas pela professora era horrível, ela ficava sentada lendo textos enormes no power point, nem na aula dela tinha design de informação. já que sabemos que em slides não devemos colocar muito texto, pois não dispersa a atenção. Mas o que realmente fico triste é que texto como esses não são discutidos pelos professores, muito menos pelos coordenadores dos cursos. Infelizmente duvido que um algum professor leia esse texto e resolve discutir com o restante do grupo! mas que seria muito melhor se o ensino fosse assim, seria.
  • Mora Uma pessoa de 25 (para não dizer 16) anos não é jovem mais, é um adulto em sua plena atividade de cidadania. Professor nenhum transforma sua vida, só você mesmo, o máximo que uma instituição pode fazer é tentar lhe mostrar um caminho, não espere isso da Universidade, isso vem muito antes dela. Você deve ter responsabilidade em tudo o que concerne à sua vida.
  • O problema da educação no Brasil é muito maior do que simplesmente dizer que ele deve ser resolvido na Universidade. A Lígia tem toda razão, o que está indo para a Universidade são pessoas imaturas e com uma educação básica péssima. Gosto da forma de pensar em tratar alunos como adultos, mas isso devia começar mais atrás criando assim pessoas maduras e responsáveis. Como artigo recomendo um que está no site do Professor Olavo de Carvalho (meu mestre em filosofia), mas que não é de autoria dele: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/jmaria6.htm
  • Oi, Cristine! Não se preocupe, não fiquei ofendida, apenas preocupada. Confesso que não entendi porque o(a?) Mora e o Paulo se sentiram tão ofendidos só porque eu disse que um professor não tem o poder mágico de fazer um aluno amadurecer, que o processo depende de cada um e ocorre internamente. Numa discussão (seja em um blog ou em uma sala de aula), todos aprendem quando o debate permanece focado nas idéias que estão sendo questionadas, em vez de se concentrar nas pessoas que estão debatendo. Mas isso exige uma certa maturidade...
  • Bem, eu amei o tema! achei interessantíssimo essa possibilidade de modificar todo um conceito de ensino e aprendizagem no Brasil, parece difícil, porém...até o computador nasceu de uma idéia, e pessoas que acreditaram tanto nisso a ponto de chegar ao extremo: A CRIAÇÃO! Legal também ver que podemos debater um assunto assim, porém, desanimador saber que não dá para conversar de forma respeitosa quando pessoas acham que o que pensam é a verdade e tem de ser dita. Espero que a Lígia não tenha se sentido ofendida (e duvido que não) pelos comentários finais acima, essas frases ofencivas foram a maior prova de que não é tão fácil implantar a andragogia no ensino superior, pois tem pessoas que não agem como adultos, mas sim adolecentes. Como seria isso então? Afinal a andragogia não deixa de ser uma forma liberal de aprendizado...se alunos não tem respeito tem pelos professores agora, imagine com toda liberdade de expressão...o que vão desenvolver??? Não digo todos, mas seria questionável isso...muitas coisas foram criadas no andamento da humanidade, mesmo que inicialmente para o bem, finalizaran-se em idéias para o mal... Um designer que não respeita um professor (intrumento de crescimento) não respeitará um cliente ou o mercado de trabalho.
  • Ligia Tenho absoluta certeza que vc fez a crítica de meu comentário partindo da sua cosmovisão, ou seja, a cosmovisão de uma professora adolecente de 40 a 50 anos que não tem conteúdo para falar do aluno justamente por ser um opositor do mesmo! Toda crítica deve ser construtiva no mínimo para que possamos relevar a opínião e analisar para que obtenhamos crescimento mais a sua crítica não me acrescenta absolutamente nada a não ser a vontade d escrever este comentário para dizer que vc é uma péssima crítica e provavelmente péssima professora e provavelmente não entendeu o artigo “Não trate o aluno de design como criança “ heheheh!
  • Oi, Alexandre! Se serve de consolo, tem uma professora lendo o texto (adorei a aula do prof. Ricardo, para variar - já está ficando chato. Juro que não é puxa-saquismo). Tento usar casos práticos nas minhas aulas, mas esse texto ampliou muito as possibilidade, já que o fazia de modo muito intuitivo. Vou estudar mais andragogia, pode ter certeza, prof. Ricardo. O que me faz pensar por que as faculdades ainda têm assistentes pedagógicos e planos pedagógicos, quando deveriam ter assistentes e planos andragógicos. Nossa, isso já explica bastante coisa, né? Outra questão é que os alunos também precisam se comportar como adultos. É difícil trabalhar um texto em um debate se ninguém o leu e nem procurou outras referências... se a discussão na sala de aula fica baseada no que cada um "acha", já que o pessoal não vai atrás de fundamentar seus pontos de vista em alguma fonte de referência. Penso que, mesmo para discordar de um autor ou ponto de vista, é esencial tê-lo lido, ou pelo menos conhecer seus argumentos principais. Vejo bastante espaço aí para os dois lados trabalharem. Vou tentar fazer a minha parte...
  • Oi, Mora! Entendi o seu ponto de vista e concordo com o prof. Ricardo que um aluno interessado e maduro já vale a aula. Concordo também que há professores que, além de não acrescentar nada, ainda desestimulam o aprendizado (é mais difícil do que parece...). Mas sobre a questão de professores transformarem adolescentes de 17 anos em jovens maduros de 25, infelizmente sou obrigada a discordar. A maturidade é própria de cada pessoa - cada um tem seu tempo para fazer a ficha cair. Conheço adolescentes de 40, 50 anos de idade. E certamente há pessoas que amadurecem aos 15. O professor pode dar uma ajuda, mas não pode fazer a transformação, que depende de um processo interno individual. Não temos esse poder todo...
  • Eu ainda num sei bem de onde vem esse tipo de falta de maturidade, mas me parece simplesmetne falta de senso de realidade. O cara num percebe que tem 4 ou 5 anos pra conseguir passar de um nivel de conhecimento zero a um nível que o tornará um profissional. Num se percebe que esses 5 anos definirão os 30 restantes... E influenciarão também outras pessoas, o meio do design e o meio social por completo. Um projeto qualquer de design direciona-se a usuários, e esses certametne serão numerosos, portanto, um projeto imaturo acaba afetando muita gente de forma negativa... Por causa de 4 ou 5 anos mal feitos...
  • Tambem é genial entrar numa sala de aula com professors maduros e capazes de transformer adolecentes de 17 anos em jovens maduros de 25 anos , e adolecentes de 25 anos em jovens de 25 anos . Se tiver apenas um professor desses na sala de aula, já é razão suficiente para sentir prazer em estudar.
  • Sim Lígia, conforme o professor Cavalcanti diz no final do texto, nós pegamos adolescentes no primeiro ano da faculdade e devolvemos adultos formados, e essa fase de transição é um desafio para os professores e, obviamente, para os próprios alunos, que sentem na pele esse período de amadurecimento e definição. Adolescentes de 17 anos não gostam de ser tratados como crianças, mas muitas vezes agem como se fossem. Cabe ao professor ter sensibilidade para diferenciar esses adolescentes-crianças dos adolescentes-adultos. Saber que existem diferentes perfis já é um passo para lidar com eles. Infelizmente, aqueles que agem como se estivessem no segundo grau, esperando pelo "sinal do recreio", ou esperando o professor passar a matéria no quadro, vão ficar para trás, subutilizando seu potencial de aprendizagem.
  • Acho que é por isso que eu ainda não larguei a faculdade ... a vontade é grande , já que as vezes me vejo escravizado por alguns "professores" que acham que somente a sua cadeira boboca de projeto importa ... e nem conseguem saber de onde vem aquilo que eles tão ensinando ... venho criando um feeling diferente do que seja realmente o trabalho do designer ... se estou certo ou não , so vou saber com o tempo ... É muito bacana saber que gente que tá do outro lado também pensa assim ... como pude ver no video a ultima folha do caderno ( não lembro se era exatamente esse o titulo , mas ta postado em algum tópico da comunidade design brasil no orkut ) e agora com esse artigo ... o design é uma " disciplina " muito diferente das outras e requer também um ensino diferenciado ... e as vezes so a postura mais flexivel de um professor , com maior diálogo ( não so falar de projeto projeto projeto , mas dialogarrrrr ) pode fazer muito pelo crescimento do aluno e também do prefessor
  • Professor nota zero http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/gilbertodimenstein/ult508u500752.shtml Dos 241 mil professores que se submeteram à prova da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo, 3.000 tiraram zero: não acertaram uma única sobre a matéria que dão ou deveriam dar em sala de aula. Apenas 111, o que é estatisticamente irrelevante, tiraram nota dez. Os números finais ainda não foram tabulados, mas recebo a informação que pelo menos metade dos professores ficaria abaixo de cinco. Essa prova tocou no coração do problema do ensino no Brasil, o resto é detalhe. Como esperar que um aluno de um professor que tira nota ruim ou mediana possa ter bom desempenho? Impossível. Se fosse para levar a sério a educação, provas desse tipo deveriam ser periódicas em toda a rede (assim como os alunos também são submetidos a provas). Quem não passasse deveria ser afastado para receber um curso de capacitação para tentar se habilitar a voltar para a escola. A obrigação do poder público é divulgar as listas com as notas para que os pais saibam na mão de quem estão seus filhos. Mas a culpa, vamos reconhecer, não é só do professor. O maior culpado é o poder público que oferece baixos salários e das universidades que não conseguem preparar os docentes. Para completar, os sindicatos preferem proteger a mediocridade e se recusam a apoiar medidas que valorizem o mérito. O grande desafio brasileiro é atrair os talentos para as escolas públicas --sem isso, seremos sempre uma democracia capenga. Pelo número de professores reprovados na prova, vemos como essa meta está distante.