Mercomóveis 08 – Entrevista com Dijon de Moraes

Dijon de Moraes Mercomóveis

A história da colonização da região oeste catarinense, as características regionais, a identidade sócio-cultural local e a riqueza da matéria-prima foram atributos que embasaram a produção de 14 móveis, peças exclusivas que serão expostas na “Mostra de Móveis Cara do Oeste Catarinense”, durante a Mercomóveis 2008, feira de móveis que acontecerá de 25 a 29 de agosto, no Parque de Exposições Tancredo Neves, em Chapecó (SC).

Este trabalho é resultado da oficina de design, promovida pelo Sebrae/SC em parceria com 14 empresários que integram o projeto Pólo Moveleiro do Oeste de Santa Catarina, do Sindicato das Indústrias Madeireiras, Moveleiras e Similares do Vale do Uruguai (Simovale) e da Associação dos Moveleiros do Oeste de SC (Amoesc).

Após seis meses de estudos – encontros, elaboração de projetos, readequações – os móveis encontram-se em fase final de elaboração. A apresentação oficial acontecerá no primeiro dia da Mercomóveis 2008, dia 25 de agosto.

Nesta entrevista, o designer coordenador da oficina, Dijon De Moraes, considerado um dos mais criativos designers da atualidade, fala sobre o desempenho das empresas que participaram e o que o design representará para o futuro das indústrias de móveis do oeste catarinense e deixa claro “tendência, na contemporaneidade, é a mistura com equilíbrio, predominando a inovação e ousadia”.

Desde o momento que o sr. teve contato com móveis produzidos na região Oeste catarinense, constatou que as peças precisavam de identidade?
Dijon De Moraes – Quando falo em identidade própria é como se déssemos vida ao móvel. É olhar para a peça e ter condições de identificar as características regionais, ou seja, perceber os traços de acordo com a topografia, as imagens predominantes daquela região, considerar aspectos da cultura do povo e transferí-lo para a produção moveleira. Além disso, é preciso, portanto, que o móvel carregue todas estas informações com ele e, quando no mercado, os consumidores possam identificar a sua origem, valorizando um design próprio que reflete verdadeiramente uma consistente história local.

Como foi desenvolver a oficina de design com empresas do pólo Moveleiro do Oeste de Santa Catarina?
Dijon De Moraes
– Surpreendente, pois nosso objetivo foi despertar a identidade própria a ser inserida na indústria moveleira local, considerando os recursos existentes em cada empresa participante, ou seja, o ambiente da sua fábrica, seus maquinários e os materiais utilizados. Após seis meses de imersão nesta experiência, tenho a sensação plena que estes moveleiros – empresários e funcionários – perceberam que são capazes de produzir um produto diferenciado e inovador por conta própria.

Quem são as empresas que participaram do projeto?
Dijon De Moraes
– Concordaram em participar deste desafio as empresas: MPO e Serpil, de Pinhalzinho; Scholl e Kasper, de São José do Cedro; Imobal, de São Miguel do Oeste; UB, de Serra Alta; KK Móveis e Daico, de Nova Erechim; Petry, de Seara; Panda, de Coronel Freitas; Henn, de Mondai e Triarte, Âmagos e Escal, de Chapecó.

Quais os móveis eleitos pelos empresários que receberão os diferenciais?
Dijon De Moraes
– As produções contemplam desde peças de dormitórios, aparadores, home theater, cadeiras, poltronas e mesas de centro, o que nos comprova a diversidade produtiva do Arrnajo Produtivo Local (APL) do Oeste de Santa Catarina. Para isso, além dos empresários moveleiros participaram também desta experiência funcionários das fábricas, nove designers e dois professores da Unoesc Xanxerê.

As peças que estarão na mostra podem ser consideradas de fácil inserção no mercado?
Dijon De Moraes
– Sem dúvida. São peças que despertarão sensações no consumidor e, por isso, bem mais valorizadas. E o mais importante: o mercado está cada vez mais valorizando produtos que considera seu lugar de origem, sua história e sempre com enfoque na preservação do meio ambiente. Integrar um projeto como este representa a preocupação em oferecer novidade para o cliente, respeitar uma realidade regional, nos diferenciando daquilo que está sendo oferecido no mercado já bastante massificado e globalizado.

Um móvel dotado de características regionais pode ser considerado de maior valor monetário?
Dijon De Moraes
– Este é um fenômeno recente de mercado que vem acontecendo como resposta ao avanço da globalização. Esta, por vez, tende a igualar os produtos em qualidade produtiva, no uso das matérias-primas e nas referências estéticas cada vez mais iguais e previsíveis. Por isso, quando utilizamos como ponto de partida a referência da identidade local e regional temos a possibilidade, de pelo menos em parte, inserir novos valores estéticos que existam somente naquela região. Hoje o cliente está disposto a pagar um pouco mais por produtos diferenciados, pois ser diferente faz parte da natureza humana.

Quais as características regionais do grande oeste catarinense que foram consideradas para a produção destes móveis?
Dijon De Moraes
– Estudei individualmente documentos, livros e assisti a DVDs que tratam da colonização do Oeste de Santa Catarina e procurei reavivar os desafios e a saga dos colonizadores na região. Para tanto considerei a história dos balseiros que transportavam madeiras de lei como o cedro, o pinho, o louro, a guajuvira, a araucária, a açoita e a cabriúva, utilizadas nas construções das balsas, bem como outras madeiras claras como as de pinheiro e a gramixinga marfim. A topografia local também foi considerada, é composta por planaltos, planícies e linhas planas. A forte ocupação regional européia italiana e alemã de igual forma nos possibilitou a referência em mobiliários de tonalidades sóbrias, com cores mais suaves e formas clássicas visivelmente identificadas no povo imigrante.  Também traduzimos a coragem, a força, o vigor dos imigrantes que, nos móveis, podem ser percebidos pela sua robustez. A natureza da região oeste catarinense é muito generosa e oferece inúmeras possibilidades de matéria-prima para criação, mas é preciso pensar em preservação, a sustentabilidade do meio ambiente também foi uma condicionante para os projetos dos mobiliários, pois hoje ninguém exporta sem considerar este quesito.

Por falar em meio ambiente, como produzir móvel preservando a natureza?
Dijon de Moraes
– Os moveleiros do oeste catarinense já fazem isso. O oeste catarinense é uma das regiões brasileiras privilegiada pelo verde e pela preservação ambiental. As empresas locais utilizam pinus e eucalipto que são madeiras de reflorestamento e isto deve ser dito pelos produtores locais. Dificilmente se encontra móveis com madeira nobre aqui na região. O próprio MDF ecológico F1*, conhecido como madeira industrializada reflorestável, é muito utilizado nas indústrias do APL catarinense. Além disso, muitas empresas da região mantêm suas áreas de reflorestamento. Falta os empresários informarem aos lojistas, a seus representantes e aos consumidores esta prática, pois, no futuro, isso fará grande diferença. Nos produtos desta coleção, tudo isso foi explorado como diferencial competitivo.

Como valorizar características locais em um mercado mobiliário que todo ano dita tendência em móveis?
Dijon de Moraes
– Tendência se ditava antes do processo de globalização. Atualmente, podemos dizer que a tendência é optar por produtos ecológicos, que agridem menos o meio ambiente. Hoje, grandes empresas pensam em várias referências estéticas, as tendências são múltiplas e diversificadas como diversas são as regiões do mundo. É como a moda, por exemplo. Difícil dizer o que não está na moda hoje. Tendência, na contemporaneidade, é a mistura com equilíbrio, predominando a inovação e ousadia.

Qual a importância desta mostra para a feira Mercomóveis?
Dijon de Moraes
– A idéia é que, após a formação deste grupo, estes jovens designers atendam os moveleiros da região no que se refere à produção com design e inovação. Formamos um corpo técnico local de profissionais com condição de levar adiante este trabalho, inclusive melhorar o processo já existente e bem iniciado.

A Mercomóveis é a mais importante feira da região da “Grande Fronteira” que compreende a região oeste de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e sudoeste do Paraná tendo seu reconhecimento também no exterior. É uma feira de retorno consolidado pela importância conquistada ao longo do tempo e pela sua tradição na geração de negócios. Reúne cerca de 383 empresas do setor moveleiro, fabricantes de salas de jantar e estar, estofados, cadeiras, racks e estantes, armários, dormitórios, colchões, copa-cozinha, móveis tubulares e infantis, escritórios, além de fornecedores de matéria-prima, insumos, acessórios e complementos.

FONTE: MB COMUNICAÇÃOmb@mbcomunicacao.com.br
Assessoria de Imprensa Oficial Mercomóveis 2008

*- Desconfio que seja a especificação E1 ao invés de F1. E1 é o MDF com teores mais baixos de emissão de formaldeído, substância tóxica presente em praticamente todas as madeiras processadas.

PS:. Toda a matéria jornalística e informações prestadas são de fornecimento e responsabilidade do evento Mercomóveis e seus parceiros.

PS2:. Isto não é um post pago nem muito menos pode ser encarado como tentativa de infligir direitos autorais com objetivo de lucro.

PS3:. O Dijon é um cara genial. Tive aula com ele no curso de Ecodesign na Unindus e depois mediei uma mesa redonda durante o Arlequinal em Sampa ano passado onde ele participou. O cara é muito bom é imagino que seja o Designer com mais auto posto em instituição de ensino, é vice reitor da UEMG.

PS4:. Estou louco para ir a essa feira, duro q é longe daqui / de Curitiba…